POSIÇÃO DE BIDEN SOBRE O ABORTO DIVIDE CATÓLICOS NOS ESTADOS UNIDOS

Os católicos dos Estados Unidos da América (EUA) estão divididos em relação ao apoio ao Presidente eleito, o democrata Joe Biden, por considerarem que os católicos praticantes têm de ser obrigatoriamente contra o aborto.

Luanda /
19 Nov 2020 / 11:14 H.

O arcebispo de Los Angeles (Califórnia), Jose Gomez, disse nesta terça-feira, perto do encerramento de uma conferência organizada anualmente pelo bispado dos EUA, que a posição favorável de Biden em relação ao aborto, coloca a Igreja numa "situação difícil e complexa".

Este dilema, prosseguiu o também presidente desta conferência, vai ser debatido por um grupo de trabalho composto por vários sacerdotes.

Vários especialistas consultados pela Associated Press (AP) acreditam que este grupo vai deliberar sobre se Joe Biden, que é um católico praticante, poderá continuar a celebrar a comunhão devido à sua posição favorável ao aborto.

Vários activistas católicos contra o aborto esperam que o bispado norte-americano converta estas palavras em acções, para mostrar que quaisquer políticos católicos que sejam favoráveis ao aborto estão contra as doutrinas da Igreja.

A agenda política de Biden é, por isso, "incompatível com a posição católica sobre o aborto e a protecção de vidas humanas inocentes", considerou a presidente da Susan B. Anthony List, Marjorie Dannenfelser, um dos maiores grupos contra o aborto.

Contudo, outros grupos de católicos criticaram a posição do bispado norte-americano, advertindo para a criação de um potencial conflito com o Presidente eleito poucos dias depois de Biden ter sido felicitado pelo Papa Francisco.

Da conversa entre o futuro chefe de Estado norte-americano e o sumo pontífice saiu o compromisso de um trabalho em conjunto contra as alterações climáticas, a pobreza e os problemas que os migrantes enfrentam.

A conferência episcopal dos EUA "não consegue simplesmente abraçar a ideia de empenhamento e boa vontade que o Papa Francisco pediu", considerou o director da Fordham University Center on Religion and Culture, David Gibson.

"O facto de o Papa ter ligado a Biden para o congratular e discutido o trabalho em conjunto enquanto os bispos norte-americanos encheram a sua reunião com planos para combater o próximo Presidente diz tudo", acrescentou Gibson.

A opinião do director da Fordham University Center on Religion and Culture é partilhada por Natalia Imperatori-Lee, docente de estudos religiosos na Universidade de Manhattan, em Nova Iorque, que considera que os bispos norte-americanos "decidiram continuar a cultura da guerra ao aborto para criar" facções na "igreja e na sociedade".

O arcebispo de Los Angeles e presidente da conferência episcopal norte-americana já tinha felicitado Biden pela vitória nas presidenciais de 03 de Novembro, enaltecendo também as posições do democrata em matérias como, por exemplo, a imigração, a justiça racial ou as alterações climáticas.

Contudo, a mensagem de Jose Gomez a felicitar Biden foi mal-encarada por elementos mais conservadores do bispado norte-americano, que criticou a mensagem simplesmente porque Biden é a favor do aborto.

"O Presidente eleito dá-nos boas razões para acharmos que vamos apoiar boas políticas", explicita uma declaração da conferência episcopal lida por Gomez, que acrescenta, no entanto, que algumas dessas políticas "enfraquecem a prioridade da eliminação do aborto".