Marcelo não precisou de sair de casa para dominar o debate presidencial

Actual chefe de Estado participou por videoconferência no debate com Ana Gomes, André Ventura, João Ferreira, Marisa Matias, Tiago Mayan Gonçalves e Vitorino Silva. “Uns e outros queriam um Presidente mais alinhado à direita ou à esquerda”, defendeu, face às críticas ao seu mandato, realçando que as crises dos últimos anos aconselhavam “um Presidente que não fosse de facção”.

13 Jan 2021 / 10:12 H.

Criticado à esquerda e à direita pelos outros seis candidatos presidenciais que enfrentou no debate televisivo transmitido pela RTP1 na noite desta terça-feira, Marcelo Rebelo de Sousa dominou a troca de argumentos mesmo sem poder sair de casa, recorrendo à videoconferência por não ter recebido das autoridades de saúde confirmação de que poderia participar presencialmente mesmo após dois testes não terem confirmado o resultado positivo de infecção com o coronavírus SARS-CoV-2 que tinha recebido na véspera.

“Uns e outros queriam um Presidente mais alinhado à direita ou à esquerda”, contrapôs o actual chefe de Estado, fazendo a defesa de um mandato “que criou condições às instituições para funcionarem” e sublinhando que a sucessão de crises que Portugal enfrentou ao longo do seu mandato “aconselhava um Presidente que não fosse de facção, que criasse convergência e que aproximasse”.

Num debate muito mais sereno do que todos os frente-a-frente realizados na semana anterior, o candidato confinado na sua residência, em Cascais, assumiu o papel de garantia de equilíbrio no sistema político português e apontou prioridades para os próximos cinco anos, que vão “corresponder ao mandato do próximo Presidente”.

“É preciso recriar o país em termos estruturais”, defendeu Marcelo, apontando como próximos marcos que vão dominar a vida dos portugueses a ultrapassagem da pandemia, “acelerando a vacinação e criando condições sanitárias e apoios económicos e sociais para que a atividade económica não morra e para as desigualdades não se tornarem ainda mais insuportáveis”, e a necessidade de Portugal não acreditar numa “bazuca milagrosa” e lutar por um financiamento europeu que “venha mais cedo do que mais tarde e não às pinguinhas”.

Entre os restantes candidatos houve sobretudo consenso nas críticas ao Presidente da República em exercício, com o eurodeputado comunista João Ferreira a dizer que os afetos de Marcelo Rebelo de Sousa estão “tão mal distribuídos quanto a riqueza do país”, enquanto o líder e deputado do Chega André Ventura descreveu o chefe de Estado como “uma desilusão” e o candidato apoiado pelo primeiro-ministro. “Entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa não se sabe onde acaba um e começa o outro”, acrescentou Tiago Mayan Gonçalves, apoiado pela Iniciativa Liberal, após Vitorino Silva, presidente do partido RIR e conhecido pela alcunha “Tino de Rans”, ter falado numa “parceria entre os dois”.

Para a ex-eurodeputada socialista Ana Gomes, “o Presidente da República deve ser o garante da estabilidade, mas não a estabilidade do bloco central dos interesses que tem sido tão nefasto para o país há décadas”, apontando-lhe ainda o dedo por “normalizar a extrema-direita”, numa referência à aceitação da solução de governo de uma aliança de centro-direita nos Açores que conta com apoio parlamentar do Chega, e a intenção de “trazer de volta ao poder a direita” se for eleito para um segundo mandato. Por seu lado, a eurodeputada bloquista Marisa Matias considerou a “parceria” entre Presidente da República e primeiro ministro “correcta” e “em nome da estabilidade política”, mas acrescentou que terá gerado “bloqueios na resolução de problemas estruturais”.