Lixo ameaça a saúde pública em São Tomé e preocupa a população

A poucos metros dos contentores de lixo alguns vendedores fazem a sua refeição, enquanto cães de rua vasculham o lixo à procura de alimentos.

Luanda /
01 Nov 2022 / 13:41 H.

Moradores e comerciantes de São Tomé reclamam contra a acumulação de lixo nas ruas da capital, um problema de saúde pública que a autarquia local admite ter dificuldades de resolver face à falta de verbas para o pagamento da empresa de recolha.

“Está muito mal. Aqui nós suportamos muito cheiro, tem mulher grávida, tem criança e essa situação está muito mal. Isso não é normal, é desumano fazer isso com o cidadão”, lamenta Andresa Santos, uma vendedora de “fardo” (roupas usadas) nos arredores do mercado Côco-Côco, no centro da cidade de São Tomé.

A poucos metros do local onde tem o seu negócio, Andresa Santos e outras mulheres vêem-se confrontadas com um contentor cheio de lixo, que se espalha para a estrada e o passeio junto ao mercado.

“Eu própria não estou a parar à frente do negócio porque o cheiro está em todo o lado e toda a gente está desanimada. O lixo que está aqui não somos nós que fazemos, o lixo está a vir de todo o lugar e já há um mês que não tiram lixo daqui”, conta Andresa Santos.

As chuvas constantes dos últimos dias e a falta de esgotos agravam a situação de insalubridade na capital são-tomense.

A Lusa percorreu várias comunidades nos arredores da cidade, e constatou cenários semelhantes de contentores entulhados e lixos a invadirem os passeios e estradas, nomeadamente nas localidades de Riboque Capital, São João da Vargem, Mato Quitchiba, Vila Maria, Fruta Fruta e Madre Deus.

A acumulação de lixos acontece mesmo em frente a escolas, como a Dona Maria de Jesus, Jardim Páscoa de Carvalho e São João da Vargem, por onde passam diariamente centenas de crianças.

Alguns alunos criticam “o mau exemplo”, que contraria o que aprendem nas aulas.

“Ensinaram que não se deve deitar o lixo para o chão, porque pode trazer-nos muitas doenças. Não joguem lixo para o chão!” disse um estudante do 7.º ano da escola São João.

A Federação das Organizações Não-Governamentais (FONG) desenvolveu um projecto, financiado pela União Europeia, para promover a recolha de resíduos sólidos e limpeza da capital, no quadro das medidas de prevenção à covid-19, no ano passado.

“A questão do lixo é preocupante também para as organizações da sociedade civil, nomeadamente para a FONG e outras organizações associadas, porque de facto o lixo demonstra uma imagem muito negativa para a nossa cidade e só contribui para demonstrar que o país ainda tem dificuldades do ponto de vista do tratamento do lixo”, afirma o secretário-permanente da federação, Eduardo Elba.

O representante da FONG sublinha que “uma capital do país não pode conviver com tanto lixo” e reclama apoios das instituições estatais e privadas para as iniciativas da sociedade civil que procuram garantir a limpeza da capital.

O médico Daniel Carvalho adverte que os resíduos sólidos “podem favorecer o aparecimento de vectores, tanto sólidos como orgânicos” de que “os insectos voadores e os roedores se alimentam” e “podem causar outras doenças vectoriais”, nomeadamente o paludismo.

“Um défice no tratamento do lixo pode levar à afectação do quadro da saúde pública aqui em São Tomé, sem contar que temos outro problema associado também aos animais e ao lixo: temos os cães que, ao consumirem lixo, fazem com que favoreçam outros vectores”, explica Daniel Carvalho.

A maioria dos lixos produzidos em São Tomé são queimados numa lixeira a céu aberto na localidade de Penha, a cerca de dois quilómetros do centro da cidade.

O presidente da Câmara de Água Grande recusou prestar declarações à Lusa, referindo que teria explicado a situação do lixo na capital do país numa entrevista recente à televisão são-tomense.

Nas declarações à TVS, José Maria Fonseca atribuiu responsabilidades à empresa de recolha, apesar de admitir atrasos no pagamento do contrato.

“Apenas onde têm esses contentores grandes é que o lixo prevalece sem retirar. Os motivos não vejo serem justos, isto porque nós sempre pagámos - às vezes atrasa uma factura ou outra, mas nós sempre pagámos, mas nós percebemos que no momento da campanha [para as eleições de 25 de Setembro] esta empresa parou de retirar o lixo: nós fizemos uma campanha em cima do lixo praticamente”, lamentou o presidente da autarquia da capital são-tomense.