Analista compara insurgência em Moçambique a uma maratona

João Feijó diz que os grupos insurgentes “jogam com o tempo” e estão preparados “para estar 10 ou 20 anos” a aterrorizar a região, “a viver no mato, do saque e do roubo”.

Luanda /
04 Out 2022 / 13:35 H.

O analista João Feijó considera que a violência armada em Cabo Delgado ameaça prolongar-se e as autoridades devem estar preparadas para enfrentar “uma maratona”, em vez de “uma corrida” que se resolve rapidamente.

“Eu acho que este conflito será uma maratona, não será uma corrida de 1 500 metros, como se pensava que ia ser”, referiu à Lusa, a propósito dos cinco anos de conflito.

Os grupos insurgentes “jogam com o tempo” e estão preparados “para estar 10 ou 20 anos” a aterrorizar a região, “a viver no mato, do saque e do roubo”.

“Nós não temos tempo”, refere, numa alusão à pressa do país em ter as petrolíferas de volta para exploração de gás natural, à necessidade de pôr cobro a uma intervenção militar muito cara e ao desejo dos soldados em voltar para casa.

Feijó acredita que o Governo percebeu que terá de conviver com algum grau de violência, algo que poderá transformar-se num “conflito de baixa intensidade”.

“O próprio Governo vem admitir que o problema da instabilidade vai se prolongar durante vários anos, mas temos de conviver com ele”, acrescenta.

Só não se sabe se tal será suficiente para o regresso dos projectos de gás.

O investigador considera que essa é uma resposta que devia ser dada pela TotalEnergies, a petrolífera que teve de abandonar as obras junto a Palma, depois do ataque de Março de 2021 e que diz continuar à espera de segurança.

O ataque marcou a entrada numa terceira fase do conflito, referiu, em que Moçambique pediu ajuda externa e o Ruanda entrou (a par da SAMIM, missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral), ajudando a reconquistar zonas que o estado “não conseguia administrar”.

“Foi uma viragem”, sublinha.

O ataque inicial aconteceu em Mocímboa da Praia a 05 de Outubro de 2017, no que classifica como primeira fase do conflito.

Seguiu-se uma segunda fase, com grande pressão das forças rebeldes, que cresceram, estabeleceram bases, ocuparam território e levaram à suspensão dos projectos de gás de Moçambique, o maior investimento privado em África.

A ofensiva militar das forças aliadas reconquistou as zonas em redor dos estaleiros (Palma e Mocímboa da Praia, entre outras) e acabou com as grandes bases de insurgentes, onde “tinham contacto com a população” e “criavam uma entidade contrária ao Governo”, descreve Feijó.

Os rebeldes que restam voltaram para as matas e, de novo, com ataques pontuais contra comunidades relativamente remotas, só que agora expandindo a área de actuação, agredindo distritos do sul de Cabo Delgado e na província de Nampula.

Cinco anos depois, “continua uma grande névoa, não está claro” contra quem é que Moçambique está a lutar.

“Talvez esteja claro para os serviços de informação de Moçambique, Ruanda ou da SAMIM, mas essa informação não é passada para o público”.

Alguns ataques têm sido reivindicados pelo grupo Estado Islâmico, mas “o que se sabe” contado por “quem esteve com os insurgentes, é que o grupo não é assim tão homogéneo”.

Há estrangeiros e há moçambicanos, “com diferentes níveis de radicalização e motivação”.

O conflito já fez cerca de 800 000 deslocados internos devido ao conflito, de acordo com a Organização Internacional da Migração (OIM), e 4000 mortes, segundo o projecto de registo de conflitos, ACLED.