Vem aí a emissão angolana mais cara de sempre

Finanças com ‘luz verde’ do PR para prepararem nova emissão de eurobonds, até três mil milhões USD. Mas a crise instalada por causa do Coronavírus vai tornar este financiamento mais caro do que os anteriores, alertam analistas.

24 Mar 2020 / 10:49 H.

O Governo prepara uma nova emissão de eurobonds, até três mil milhões USD, indica um despacho do Presidente da República da passada terça-feira. Vai ser a quarta emissão do género desde 2015, mas, neste contexto e neste momento, analistas alertam para o preço alto que Angola vai pagar por este novo financiamento. O Despacho Presidencial n.º 44/20, de 18 de Março, autoriza a ministra das Finanças a lançar o processo de emissão nos mercados internacionais, referindo “a necessidade de se recorrer a financiamento externo para a cobertura dos encargos orçamentais no exercício económico de 2020”. De acordo com o Orçamento Geral do Estado para este ano (OGE2020), o financiamento externo, incluindo através da emissão de eurobonds ou empréstimos bilaterais ou multilaterais, deverá ascender a 4,863 biliões Kz, ou cerca de 30,45% do total. A baixa do preço do petróleo e as perspectivas negativas geradas pela pandemia do Coronavírus, contudo, não vão ajudar Angola quando chegar o momento de convencer os investidores internacionais a comprarem estas novas eurobonds. O preço a pagar Fontes ligadas aos mercados de capitais explicam que, nesta fase, Angola deverá ser “fortemente penalizada” no que diz respeito às taxas das emissões, face às anteriores. A primeira emissão, em 2015 (ver tabela nesta página), permitiu arrecadar 1,5 mil milhões USD a 9,5%, a dez anos. Na segunda, as taxas variaram entre 8,25% (a dez anos) e 9,375% (a 30). E, no ano passado, as taxas variaram entre os 8 e os 9,125%. Mas, com a crise e a incerteza instaladas, os mercados castigaram as emissões em mercado secundário, com as africanas a sofrerem especialmente. Na última terça-feira, por exemplo, as yields da primeira emissão (ou seja, a sua taxa em mercado secundário), estavam em (21,18%), ou seja, mais do dobro da taxa de colocação. E as de 2018 estavam igualmente penalizadas, fixando-se entre 17,6 e 15,8%, em função do prazo. “É um mau momento para fazer emissões, mas provavelmente não há alternativa”, diz ao Vanguarda uma fonte ligada aos mercados de capitais angolano e internacional. “A taxa vai ser certamente muito mais alta” face às anteriores, sublinha.

A baixa do preço do petróleo e as perspectivas negativas geradas pela pandemia do Coronavírus.

“Certamente iremos pagar mais”, corrobora outra fonte, sendo que, internamente, não há muita capacidade da banca para ajudar o Estado, que precisa de financiar o OGE (cerca de metade da despesa, recorde-se, é financiada por dívida). E, com a crise em curso e à vista, mais difícil será procurar financiamento dentro de portas. As emissões de eurobonds e outros financiamentos internacionais estão previstos como modo preferencial de financiamento na Estratégia de Endividamento de Médio (2019-2021). “A nível da dívida externa, a directriz tem sido a manutenção de um posicionamento no mercado financeiro através de emissões de eurobonds, que permitem diversificar a carteira e conferem maior transparência para o mercado”, refere o documento. O Governo acredita que “o programa com o Fundo Monetário Internacional permitirá consolidar a posição fiscal do Estado, reduzindo assim os custos de funding”, o que irá abrir “uma janela de oportunidade para um maior enfoque na emissão de obrigações no mercado internacional (euro bonds)”, lê-se no documento, datado

de Março do ano passado. “Pretende-se utilizar as fontes [de

financiamento] multilaterais com o objectivo de reduzir os custos de financiamento, e as eurobonds para reduzir o risco de refinanciamento e de taxa de juro”, acrescenta o documento,

feito numa altura em que era imprevisível a crise actual, que irá levar a que mais países – incluindo economias desenvolvidas – lancem emissões para financiar os custos que estão a ter e terão para conter os efeitos da pandemia de Covid-19 sobre a economia. Sobe assim a pressão sobre Angola.