Líbano: ex-primeiro-ministro teme nova guerra civil

O eterno desentendimento entre sunitas e xiitas continua a minar qualquer esforço de recuperação da economia, seja por parte da França, seja do FMI. O país está sem governo, sem dinheiro e sem destino que não passe pela guerra.

Lisboa /
09 Out 2020 / 02:50 H.

Aquele que é considerado o principal político muçulmano sunita do Líbano, o ex-primeiro-ministro Saad al-Hariri, disse esta quinta-feira que teme o início de conflitos civis num quadro em que o país continua a afundar-se numa crise económica e financeira sem precedentes desde a guerra civil de 1975-1990.

“Temo uma guerra civil e o que está a acontecer em termos de porte de armas e o que estamos a ver em termos de exibições militares nas ruas... significa o colapso do Estado”, disse Hariri em uma entrevista a uma televisão.

O colapso financeiro do Líbano desde o ano passado destruiu o valor da moeda e fez disparar a inflação, o que tem alimentado a agitação social num país onde as divisões são profundas desde uma guerra travada entre as linhas sectárias sunita e xiita – com largas interferências externas a alinharem de ambos os lados do conflito.

Hariri, um aliado ocidental tradicionalmente alinhado com os estados do Golfo, disse ainda que o Líbano não tem demonstrado capacidade para encontrar uma saída da crise, mesmo com o patrocínio de um programa do Fundo Monetário Internacional.

As negociações com o FMI foram paralisadas no início deste ano devido a disputas entre funcionários do governo libanês, banqueiros e partidos políticos sobre as necessidades financeiras do país e a melhor aplicação dos fundos.

Hariri acrescentou que só regressaria à condição de primeiro-ministro se houvesse um acordo entre os muitos políticos rebeldes do Líbano para garantir a conclusão positiva das negociações com o FMI.

Por outro lado, estas mesmas disputas entre os partidos libaneses bloquearam as negociações sobre um novo gabinete no mês passado, num golpe no esforço francês para retirar o país da crise. O governo cessante demitiu-se devido à explosão no porto de Beirute, que matou quase 200 pessoas e praticamente destruiu a capital, Beirute, em 4 de agosto passado.

Doadores estrangeiros deixaram claro que não haverá novas ajudas a menos que o Estado altamente endividado dê início às reformas que há muito tempo ignora e que seja proativo no combater ao desperdício e à corrupção.