Filme “Ar Condicionado” refresca cinema angolano

Durante sete dias, o filme angolano “Ar Condicionado”, lançado oficialmente nesta semana, estará disponível de forma gratuita em todo o mundo.

09 Jun 2020 / 14:58 H.

Esta primeira longa-metragem de ficção da produtora Geração 80 foi seleccionada no “We Are One film festival”, iniciativa do festival de Tribeca nos Estados Unidos, juntamente com outros 20 reputados festivais como Sundance, Cannes, Toronto, Roterdão, em parceria com a plataforma online YouTube.

“É um grande orgulho termos um filme angolano seleccionado neste festival, é uma forma de atingirmos um público a nível mundial que de outra forma não conseguiríamos. We Are One acaba por ser uma reacção dos festivais e produtores de cinema independentes à pandemia global, que forçados a cancelar os seus eventos físicos resolveram disponibilizar os filmes online”, reconhece o realizador Jorge Cohen.

Neste intervalo de sete dias, o realizador Jorge Cohen admite estarem ansiosos para ver a reacção dos espectadores, cinéfilos, curiosos e, por ser uma iniciativa de vários festivais, ter o escrutínio de críticos de cinema. Por outro lado, reconhece que há cada vez mais interessados no cinema africano e cinema negro, que durante várias décadas não teve a adequada representação nas grandes telas.

“Temos recebido muitas mensagens e notado um crescente interesse por parte da diáspora angolana, comunidade negra brasileira e americana. Para além da partilha com o grande público, vemos também como uma óptima oportunidade para criar pontes e colaborações para futuros projectos”, traçou.

Com o mundo a viver uma crise pandémica e o cinema a ajustar-se à nova realidade, Jorge Cohen elogia a forma como a distribuição se impôs, criando experiências até então não pensadas, de festivais a migrarem para uma versão online e plataformas como a Netflix, Amazon Prime a terem crescimento de utilizadores sem precedentes ou até o regresso dos cinemas drive-through.

“Penso que algumas destas experiências irão continuar, não substituindo os eventos públicos, mas completando com uma presença online mais consistente.
Porém, por mais plataformas disponíveis que tenhamos, se continuarmos sem apoio de fomento à produção não conseguiremos ter uma produção regular, o cinema, infelizmente, está entregue a si próprio”, lamenta o realizador.

Jorge Cohen manifesta-se descontente pela morosidade nas resoluções de questões que considera importantes, como a discussão do fundo de cinema, a lei do mecenato, quotas para conteúdos locais nas televisões, apoio à promoção, divulgação e formação, esta primeira longa-metragem de ficção da produtora Geração 80 foi seleccionada no “We Are One film festival”, iniciativa do festival de Tribeca (nos Estados Unidos), juntamente com outros 20 reputados festivais como Sundance, Cannes, Toronto, Roterdão, em parceria com a plataforma online YouTube.

“Infelizmente, sinto que relegamos a cultura para um plano secundário. Acho que este foi um dos grandes erros que o nosso país foi cometendo ao longo dos tempos. É precisamente por termos este desinvestimento contínuo na cultura que temos uma identidade frágil como país e não paramos de importar tudo incluindo referências, ideias e identidade”, salienta.

Deste cenário, Jorge espera que nos próximos anos o país tenha um cinema mais diversificado, não apenas de entretenimento, mas também como forma de arte. Para si, este foi mais um momento em que a arte provou o seu valor, sendo que durante estes quase três meses de quarentena que foram os filmes, a música e a leitura o seu grande bálsamo.

Para o que vem a seguir, avalia não ser possível que nos próximos seis meses não tenhamos a vida cultural normalizada, por ainda haver motivos de muita cautela, tanto por parte dos promotores culturais, como uma certa desconfiança por parte do consumidor. Parte desta nova geração que acredita que a tecnologia veio para ficar e que devemos tirar o melhor partido dela, Jorge acredita que ainda assim as novas tecnologias estão longe de substituir a experiência humana de partilhar um palco ou uma sala de cinema.

“No nosso contexto a Internet não é ainda uma opção para todos, é um complemento, mas não um substituto. Com o óptimo clima que temos durante todo o ano, defendo que devemos retomar os cinemas ao ar livre, mais perto das comunidades, com menor custo de manutenção e consequentemente um preço mais acessível para o consumidor”, defende.