Massano culpa seca pelo aumento da inflação e admite rever meta

Segundo o governador a subida da inflação está a ser provocada por restrições na oferta de produtos alimentares devido à seca e às dificuldades na importação motivos que estão fora do alcance da política monetária. Por isso meta de 18% de inflação pode ser revista.

Luanda /
06 Abr 2021 / 10:14 H.

O Banco Nacional de Angola (BNA) pode rever a meta de inflação para 2021 fixada em 18% caso a evolução dos preços nos próximos meses o justifique, admitiu o governador do banco central, José de Lima Massano, em conferência de imprensa após reunião do Comité de Política Monetária ( CPM), nesta semana.

Segundo o governador a subida da inflação está a ser provocada por restrições na oferta de produtos alimentares devido à seca e às dificuldades na importação, motivos que estão fora do alcance da política monetária. Os instrumentos de política monetária só são eficazes, quando é a procura a fazer subir os preços.

Mais de metade do aumento dos preços deveu-se a 24 produtos dos 732 produtos que compõem o cabaz de consumo dos angolanos, entre os quais o tomate e a cebola, garantiu Massano.

Em Fevereiro, o custo de vida em Angola aumentou 2,1% face a Janeiro sendo que a classe de alimentação e bebidas não alcoólicas foi responsável por 71,4% desse aumento correspondente a 1,5 pontos percentuais. Os preços da classe aumentaram 2,5% em termos mensais e 30,6% em termos mensais.

“Vamos continuar a fazer o acompanhamento da evolução dos preços nos próximos meses, o que pode levar a uma revisão do nosso objectivo de inflação com base na realidade da economia” disse José de Lima Massano.

Entretanto, o BNA continuará a usar os instrumentos de política monetária para influenciar o comportamento dos preços e atingir os seus objectivos para 2021.

O Governo estimou uma meta ambiciosa de 18% numa altura em que a economia precisa de aquecimento. Isto fará com que o BNA tenha uma política monetária com pendor contraccionista”, disse o economista Porfírio Muacassange, em declarações ao Vanguarda.

“Para manter a estabilidade de preços, o Executivo deve continuar a trabalhar no quadro da coordenação das políticas macroeconómicas fazendo com que as políticas monetárias e fiscais não sejam antagónicas”, apontou.

Por outro lado, o economista esclarece que “é fundamental, que a oferta responda à procura sendo para tal necessário conjugar o esforço da importação de bens e serviços com a produção nacional que ainda não apresenta escala”.

“Enquanto perdurar o baixo volume de reservas internacionais líquidas que condicionam a importação de bens e serviços essenciais cuja produção nacional é exígua, continuaremos a assistir uma forte pressão sobre os preços desses produtos”, considerou.

“É fundamental que o Governo ponha em funcionamento a reserva estratégica alimentar e ponha em evidência o papel do Entreposto Aduaneiro de Angola”, clarificou Muacassange.

O que decidiu o CPM

O Comité deixou a política monetária praticamente inalterada. Decidiu manter a taxa do BNA, principal instrumento de política monetária, em 15,5% e a taxa de juro da Facilidade Permanente de Cedência de Liquidez indexada à taxa de juro de mercado dos Bilhetes do Tesouro para 91 dias, acrescida de 0,5%.

O CPM apenas alterou a taxa de juros da linha de crédito para absorção de liquidez com prazo de uma semana, que passou de 7% para 12% para apoiar os bancos que concedem crédito à economia.

Adicionalmente, o CPM entendeu ampliar até o final do ano de 2021 o prazo de vigência do Aviso n.º 10/2020, de 03 de Abril, que obriga os bancos comerciais a concederem crédito equivalente a um mínimo de 2,5% da sua carteira de activos para apoiar a produção de 26 bens essenciais que apresentam défices de oferta nacional.

“Em vez de voltar mexer em no aviso, que vencia em Dezembro de 2020, resolvemos alargar o prazo, permitindo que os bancos, mesmo aqueles que tenham já cumprido e superado os 100% do valor financeiro, possam continuar a beneficiar dos incentivos do Aviso 10 para apoiar o sector real da economia”, justificou o governador do BNA.

Até final de Fevereiro deste ano, o sector bancário concedeu mais de 210 mil milhões Kz, correspondentes a 117,5% do valor mínimo estipulado pelo Banco Central. Mas em termos de número de projectos apoiados com desembolsos realizados, o nível de cumprimento não ultrapassa 25,41%.