FMI conclui quarta revisão e piora previsão de crescimento para 0,4% este ano

Mais conservador do que as instituições de Washington e as agências de notação financeira, o Governo espera uma estagnação da economia para este ano. Enquanto o BFA é mais optimista e aponta para um crescimento de 3%.

Luanda /
29 Jan 2021 / 04:54 H.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) piorou a previsão de crescimento da economia angolana, antecipando uma recuperação de 0,4% contra os 3,2% previstos na terceira revisão, em Setembro do ano passado.

A previsão consta na análise detalhada da instituição à quarta revisão do Acordo de Financiamento Alargado (EFF, na sigla em Inglês), divulgado esta quarta-feira em Wonghiston, depois de ter desbloqueado 487,5 milhões USD na semana passada.

“Apesar de estar a melhorar, a perspectiva de evolução económica continua altamente desafiante, devido à lenta e incerta recuperação dos choques da COVID-19”, dizem, os especialistas do FMI, argumentando que “sendo uma economia altamente dependente do petróleo, sofre de fraquezas neste sector, como a queda da produção e uma recuperação apenas parcial dos preços internacionais recentemente”.

Tal como como o FMI, o Banco Mundial no relatório “Global Economic Prospects”, divulgado no princípio do deste mês, também baixou a previsão ao apontar um crescimento de 0,9% contra os 3,2% previstos em Outubro de 2020.

Quanto às agências de notação financeira, a Moody’s prevê um crescimento de 2,5%, enquanto que a Fitch Solutions aponta para 1,7%. “Esperamos um aumento nas exportações petrolíferas, que vão tirar Angola da recessão de cinco anos em 2021, contribuindo para um crescimento moderado do PIB”, justificam os especialistas da Ficth.

Com a previsão de crescimento de 3%, o BFA é bem mais optimista do que as instituições de Bretton Woods, as agências de notação financeira e o Governo que espera uma estagnação da economia.

“O cenário macroeconómico do Governo espera um recuo de 6,2% da economia petrolífera em 2021, enquanto o BFA antecipa um decréscimo ligeiramente menos acentuado de 5,3%. Em sentido contrário, do lado da economia não-petrolífera, o governo prevê um crescimento de 2,1%; a nossa premissa é mais optimista, prevendo uma expansão de 6,8%”, justificam os técnicos do BFA.

“A diferença significativa resulta do efeito de um preço do petróleo mais elevado, através de maiores receitas fiscais e de uma maior disponibilidade de divisas, que resultará num Kwanza menos enfraquecido do que no cenário do Executivo; ambas estas consequências resultam num ambiente mais benigno para a economia não petrolífera”, concluem.

Dívida pública subiu para 134,2% no ano passado e para 120% este ano

“A dívida pública deverá aumentar de 107% do PIB em 2019 para 134% em 2020; as projeções para 2020 refletem principalmente a depreciação da taxa de câmbio e a queda dos preços do petróleo no seguimento do choque desencadeado pela pandemia da COVID-19”, escrevem os analistas FMI no relatório detalhado do programa.

De acordo com o documento “a dívida pública deverá cair este ano para 120% do PIB, reflectindo o início da recuperação do crescimento e uma visão orçamental restritiva”, o que compara com os 107,5% previstos em Setembro.

Quanto ao rácio da dívida pública face ao PIB o FMI avança que “deverá continuar elevado durante o horizonte das projeções e vai demorar ligeiramente mais tempo do que o projectado anteriormente a convergir para a âncora de médio prazo” de 60%, que agora deverá ser alcançado apenas em 2028.

O que dizem os especialistas sobre a avaliação

Em declaração ao Vanguarda, o economista Porfírio Muacassange entende que a decisão do FMI “revela confiança no processo de consolidação fiscal adoptado pelo Governo para restaurar a sustentabilidade externa e fiscal, melhorar a governação, e diversificar a economia, dando sinais de que a economia Angolana no médio prazo apresentará indicadores de viabilidade”.

“Embora o desembolso concedido alivie ligeiramente o stress de tesouraria, o Défice de Tesouraria do Tesouro Nacional continuará a ser expressivo e elevado para a restauração da sustentabilidade almejada” realça.

Já o economista e docente universitário António Estote, argumenta que a avaliação do Fundo não se deve ao bom desempenho da actividade económica, porque o Governo não cumpriu com algumas metas e critérios do programa de financiamento. “O FMI deliberou porque achou que esse incumprimento se deve à pandemia da COVID -19”, afirmou.

“O foco do FMI esteve no sistema financeiro, sobretudo na questão legal, ou seja, o FMI viu de bom tom a nova lei do BNA e a Nova lei das Instituições financeiras, como também, vê com bom grado a reestruturação e recapitalização do BPC e do Banco Económico. Estes são os principais factores que influenciaram para esta avaliação”, explicou.

O economista e pesquisador Francisco Paulo realça o facto de o dinheiro disponibilizado vir em boa altura. “A disponibilização dessa nova tranche é sempre bom para o País, porque o Estado está com dificuldades. Os impostos petrolíferos estão a diminuir e a capacidade de o Governo endividar-se está cada vez mais apertada porque a dívida está acima dos 100%”.

“Agora, cabe ao Executivo saber aplicar esses recursos para que geram retornos necessários que contribuam para o crescimento económico, e o mais importante, garantam estabilidade macroeconómica”, concluiu.