Angolanos gastam mais em comida do que em tudo o resto

O novo cabaz de consumo que passou a servir de base ao cálculo da inflação do Instituto Nacional de Estatística a partir de Janeiro revela que 55,6% dos gastos dos luandenses são em alimentação e bebidas não alcoólicas e 44,3% em tudo o resto. Há dez anos era o contrário. Ou seja, a estrutura de consumo da população piorou sugerindo que os angolanos quase só ganham para comer.

Luanda /
24 Fev 2021 / 11:27 H.

A estrutura de consumo dos luandenses inverteu-se nos últimos dez anos com os gastos com a comida a ultrapassarem os gastos com todos os outros bens e serviços, de acordo com o novo cabaz de consumo que em Janeiro passou a servir de base ao cálculo da inflação do Instituto Nacional de Estatística (INE).

O novo cabaz que se baseia no inquérito às despesas e receitas das famílias angolanas realizado em 2018-19, revela que a classe de alimentação e bebidas pesa 55,7% nos gastos dos luandenses, contra 44,3% de todas as outras classes de bens e serviços. No cabaz anterior resultante do Inquérito ao Bem-Estar da População de 2008-09 e serviu de base à série de inflação iniciada em 2011 a situação era a inversa com a comida a representar 44% dos gastos, contra 56% de todos os outros bens e serviços.

Enquanto a comida ganhava peso no cabaz de consumo dos angolanos o vestuário e calçado fazia o caminho inverso. Na série de inflação iniciada em 2011, 6,5% dos gastos dos luandenses eram com roupa e calçado, percentagem que desceu para 3,6% na série iniciada em Janeiro de 2021. Já as despesas com habitação, água, electricidade e combustíveis viram o seu peso descer de 12,5% do total para 5,4%.

Uma evolução que confirma o empobrecimento dos angolanos na última década. Estudos empíricos revelam que quanto mais pobre é uma população maior o peso dos gastos em comida. Estes estudos sugerem que a estrutura de consumo nas províncias ainda deve ser pior. Como as províncias são mais pobres do que Luanda, o peso da alimentação e bebidas nas despesas totais ainda deve ser maior do que na capital. O Vanguarda questionou quarta-feira o INE sobre a estrutura do cabaz de consumo a nível nacional mas não obteve qualquer informação apesar da promessa de uma resposta “o mais breve possível”.

E o peso da comida pode aumentar se se mantiver a actual tendência de aumentos dos preços da alimentação e bebidas não alcoólicas acima das restantes classes.

Comparando os preços em Janeiro de 2021 com os preços no mesmo mês do ano passado, a classe de alimentação e bebidas não alcoólicas foi onde os preços mais subiram, 30,5%, seguida das bebidas alcoólicas, 26%, e dos hotéis, cafés e restaurantes, 25,2%, de acordo o Índice de Preços no Consumidor (IPC) de Janeiro divulgado na última sexta-feira pelo INE.

Para o Director Administrativo da empresa Carrinho, Samuel Candundo, o aumento de preços dos produtos alimentares deve-se a três factores essenciais. O primeiro tem a ver com a depreciação da moeda nacional que continua a perder valor, moeda de base de importação, quer dos produtos acabados, quer das matérias-primas, portanto há essa transferência de custo derivado da variação da moeda nacional; um segundo factor são os aumentos de preços que se verifica no mercado internacional, em todos os mercados os preços estão a disparar para cima entre 10 a 15% e o último apontou como sendo consequência dos dois primeiros a redução da oferta no mercado, quando a oferta baixa mais do que a procura, os preços sobem.

Redução das importações penaliza oferta

Candundo, apela a um maior apoio aos produtores locais bem como a redução dos constrangimentos nas infra-estruturas tais como a falta de luz, água mais estradas que contribuem para a competitividade das empresas, ou seja, o foco nos factores internos, pois os outros não temos muito controle, são externos!

“A redução das importações tem penalizado a oferta de produtos no mercado e a produção interna não tem sabido tirar proveito desta redução das importações pois ainda não é uma produção competitiva. Logo, nos casos em que está a substituir as importações, está a fazê-lo com altos preços, o que tem penalizado o IPC dos produtos alimentares. Por outro lado, ainda existe muita especulação nos preços dos produtos alimentares”, constata por seu turno o economista Wilson Chimoco.

O também economista Heitor Carvalho também “culpa” o desequilíbrio entre a procura e a oferta pela subida dos preços da classe de alimentação e bebidas não alcoólicas. Havendo mais procura do que oferta é natural que os preços subam. Como uma parte crescente da população está a consumir ao nível da subsistência ou a aproximar-se dele, é natural que a pressão sobre os restantes produtos seja menor. Enquanto os preços da classe de alimentação e bebidas não alcoólicas disparavam 30,5% em Janeiro em termos homólogos, o custo de vida em geral aumentava “apenas” 24,4% recuando 0,7 pontos percentuais (pp) face aos 25,1% registados em Dezembro. O ano de 2021 começa bem em matéria de inflação já que é a primeira vez em 14 meses que se regista uma descida da taxa anual. A descida não constitui propriamente uma surpresa. Matematicamente, a inflação anual baixa nos meses em que a inflação mensal é inferior à do mesmo mês do ano anterior. Em Janeiro de 2020 a inflação mensal arrancou com uma taxa muito elevada, a inflação atingiu 2,1% em Janeiro, pelo que se esperava uma taxa mais baixa este ano como veio a confirmar-se com os preços a aumentarem apenas 1,5% em Janeiro de 2021 face a Dezembro de 2020, segundo o INE. De acordo com o INE as províncias que registaram maior aumento nos preços foram: Luanda com 1,9%, Cuanza Norte com 1,9%, Lunda Sul com 1,8% e Bié com 1,7%. Por seu turno as províncias que registaram menor variação nos preços foram: Cuando Cubango e Moxico com 1,5% cada, Cunene com 1,5%, Cuanza Sul com 1,4% e Cabinda com 1,3%. Inflação desacelera O Governo estabeleceu para 2021 uma inflação anual de 18,7%. Heitor acredita que esta meta será alcançada e considera demasiado elevada dadas as actuais circunstâncias. “A inflação tenderá a reduzir de forma significativa justificando, que depois do confinamento e da queda dos preços do petróleo que conduziram o produto, em valor, a perder cerca de 30%, até Setembro, iremos experimentar uma razoável subida da produção. Sem uma correspondente subida da procura, haverá tendência para a estabilidade dos preços”, explicou Heitor.

“Por outro lado, mantendo-se as actuais restrições às importações a coberto da ideia de protecção da produção nacional, mas que na verdade, apenas reduziram o consumo, e aumentando significativamente o fluxo de divisas devido ao aumento dos preços do petróleo no mercado mundial, é previsível uma grande estabilidade do Kwanza” acrescentou.

Wilsom Chimoco concorda com esta tendência de redução da inflação ao longo do ano, defende que com a estabilização do mercado cambial e expectativas de aumento de produtos alimentares no mercado, os preços poderão seguir tendência de queda ao longo do ano.