Governação: Executivo continua a comunicar mal

Questões relativas à economia, nomeadamente o Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA)e a dívida pública, continuam a ser “mal esclarecidas” deixando o cidadão ainda mais confuso. Há quem entenda, por exemplo, que para se saber do número de mediatecas existentes no País não é necessário que seja através o Presidente da República, como foi durante a apresentação da última mensagem sobre Estado da Nação.

Luanda /
26 Out 2019 / 16:22 H.

O Executivo angolano continua a “comunicar mal” sobre a vida do País em vários aspectos, desde questões económicas, sociais às políticas, afirmam os interlocutores ouvidos pelo Vanguarda, na sequência de vários temas abordados no espaço público sem que os cidadãos, que são o princípio e o fim das políticas publicas, percebessem.

Para o economista Precioso Domingos, é um “dado adquirido que o Executivo comunica mal”, faltando apenas identificar os factores que estão na base deste modelo de comunicação. Defende presença no espaço público de representantes do Executivo mais competentes para que ajudem a sociedade a perceber as questões, já que muitas vezes a sociedade civil faz críticas sobre assuntos que nem percebe. “Por isso, quando aparece um indivíduo do governo que percebe das coisas e esclarece as razões da implementação das políticas públicas, é muito mais produtivo ”, sugere, constatando que para muitos “a matriz e os vícios são os mesmos: vão aos órgãos de comunicação social com capa de analistas mas são provenientes do partido no poder, e muitas vezes com a qualidade abaixo da média, além de serem dúbios, defendendo algo em público mas diz o contrário em privado”.

No caso dos responsáveis da Administração Geral Tributária (AGT) em relação ao esclarecimento do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) e as suas implicações, a informação tem sido tão mal veiculada que até houve empresários que cometeram erros de interpretação, excepto alguns com noções de economia. “O próprio PCA da AGT nunca falou, limita-se a enviar os seus colaboradores aos órgãos de comunicação social”, observa Precioso Domingos, ainda docente e investigador do Centro de Estudos e Investigação da Universidade Católica (CEIC).

O mesmo problema de comunicação passa-se em relação à dívida pública, que sempre foi justificada com a construção de infra-estruturas.

Segundo Precioso Domingos, se assim fosse hoje o País estaria a beneficiar dessas infra-estruturas para pagar a dívida, mas não é o que está a acontecer. Moral da história, deduz Precioso, o Presidente da República disse igualmente que a dívida pública está a ser “um negócio”, defendendo a responsabilização dos implicados, pois está a impedir que financie as políticas públicas.

Por sua vez, o sociólogo Rafael Aguiar, a estratégia de comunicação do Executivo não tem estrado a atingir a população alvo.

Rafael Aguiar cita o exemplo das pedonais, infra-estruturas usadas para as travessias dos cidadãos, tendo-se criado spots publicitários e grupos teatrais, mas depois não há continuidade.

“Passa algum tempo nas tv e rádios mas não se envolvem as elites locais, resultado: as pessoas não usam as pedonais e continuam a ser atropeladas”, observa Rafael Aguiar. Um outro exemplo de má comunicação do Executivo é a venda ambulante – em que muitas vezes até tem razão, mas, mais uma vez, comunica mal, limitando-se a usar os fiscais, evitando activistas, ou as elites locais, como orientam a sociologia da comunicação.

Este sociólogo, que é igualmente docente, traz ainda o exemplo do espaços usados na cidade para estacionamentos de viaturas. Admite haver poucos espaços para estacionar espaços, mas constata que o Executivo tem sido incapaz de esclarecer os cidadãos sobre os locais e os preços pelo estacionamento.

E agora com o IVA, acrescenta, interessa que o Executivo comunique e o cidadão comum saiba o que é o IVA, mas não se envolvem os partidos políticos, as comissões de moradores dos bairros. “Tenho certeza de que grande parte dos que ouvem a AGT não percebeu, tendo em conta a linguagem técnica usada”, afirma Rafael Aguiar, para quem “o caso da seca e fome no Cunene só teve o mérico de ser impactante devido às imagens e não pelo Executivo, que este continua a comunicar mal.

“Não é preciso fazer um ano para saber quantas mediatecas existem no País”

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