“Tudo parece impossível até que seja feito”

No início da semana, os 15 países da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental) reafirmaram, em Abidjan, o propósito de lançar uma moeda única em 2020 ‒ um projecto pensado há mais de 30 anos. A bondade da ideia não está em causa, mas a sua exequibilidade, num espaço de tempo tão curto, evidencia alguma demência ‒ ou não, e vem à memória Nelson Mandela: “Tudo parece impossível até que seja feito.”

25 Jun 2019 / 17:52 H.
Ana de Sousa

A CEDEAO é composta por 15 países: Benim, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné-Conacri, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo (num total de 300 milhões de habitantes do continente africano). A moeda única da CEDEAO substituirá o franco CFA (usado em 12 países da África francófona) e outras sete moedas nacionais dos países-membros, uma multiplicidade que dificulta as trocas comerciais.

A reunião na capital da Costa do Marfim, que congregou ministros das Finanças e governadores dos bancos centrais dos 15 países, foi tida como um passo decisivo nesse sentido, assumiu o presidente da Comissão da CEDEAO, Jean-Claude Brou. O ministro da Economia e Finanças da Costa do Marfim, Adama Kone, afirmou que “a moeda única não é mais uma utopia tecnocrática”, ainda que a sua concretização suscite inúmeros desafios; no entanto, em breve serão discutidos o regime cambial e o modelo do Banco Central, mesmo sem uma convergência mínima de economias ou sequer complementaridade.

Tudo isto quando, em Angola, se pede o adiamento do IVA, com receita prevista no Orçamento Geral do Estado recentemente revisto. O que pensa o ministro das Finanças sobre o assunto, não o sabemos. Porém, a secretária de Estado para as Finanças e Tesouro, Vera Daves, disse, publicamente, que o País está no limite da capacidade de endividamento, considerando que este é o momento ideal para a implementação do IVA, ideia partilhada pela secretária de Estado do Orçamento, Aia-Eza Gomes da Silva. E uma e outra levam-nos a concluir que Archer Mangueira estará alinhado com o Presidente da República, que se referiu ao assunto, de forma diferente, nos discursos de abertura e de encerramento do VII Congresso Extraordinário do MPLA. Ora de acordo com o que disse, o IVA é para implementar durante este ano.

Ainda assim, uma expressão usada num debate televisivo, e ampliada pelo Presidente João Lourenço, pulverizou as redes sociais com um “não gostei” que serviu para isto e aquilo, desviando o debate do essencial, as usual.

Uma das críticas que me fazem é que tenho um olhar descontextualizado sobre o País ‒ o olhar de uma europeia. A crítica só me preocupa pelos pormenores. De uma forma geral, penso que ter um olhar descontextualizado tem sido de uma enorme vantagem, ainda mais porque mergulhei na realidade angolana sem preconceitos, com entrega e sôfrega pelo seu entendimento.

O economista português José Tavares publicou, recentemente, em Portugal, o livro A Europa não é um País Estrangeiro, prefaciado pelo actual presidente do Eurogrupo e ministro das Finanças de Portugal, o qual subscreve as palavras de Barack Obama: “A Europa em 2019 atingiu o pináculo do bem-estar humano. Colectivamente, e em média, a Europa regista o mais alto nível de qualidade de vida de qualquer outro grupo de pessoas na História deste planeta: em riqueza, em saúde e em nível de educação.”

Posso concordar que há que “desberlinizar África”, e essa é outra questão, mas prefiro, hoje, reflectir ao que me conduz a vantagem de ver Angola (ou África) de acordo com um pensamento despojado e com optimismo.

No livro a que já nos referimos, José Tavares escreve: “Aprofundar a ideia e o futuro da Europa transformou o meu amor pela Europa, tornou-o maior. Espero que também tenha aprofundado o meu conhecimento do continente e as suas aflições.” E dou por mim a pensar que também tenho, modestamente, feito um esforço para aprofundar o meu conhecimento sobre Angola “e as suas aflições”, e de uma forma mais vasta sobre o País no contexto do continente africano, e que neste processo o meu amor por Angola se tornou maior.

Fazendo desta obra o guião, retiro de José Tavares outra ideia: “A História da Europa não é uma história, e está longe de vir a sê-lo. História, na Europa, não se expressa no singular. O continente é superabundante em autobiografias nacionais que, quando reunidas, não compõem uma única biografia coerente.” E se no lugar de “Europa” colocarmos “África”, o resto mantém-se. Ora se para a Europa encaixa a asserção de Jean-Paul Sartre, “A liberdade é aquilo que fazemos com o que nos fizeram a nós”, imagine-se, então, em África. Aliás, a afirmação de Jean Monnet é da mesma forma certeira: “Se voltasse ao princípio, começava pela cultura” ‒ imagine-se em África.

Por estes dias, o projecto europeu, provavelmente extirpado do Reino Unido ‒ que mesmo dentro estava meio de fora e que, agora, de fora continuará meio dentro, é uma inevitabilidade ‒, caminha para a União Económica e Monetária. Para o continente africano, a Europa pode ser mais do que a Conferência de Berlim e, nas inúmeras contradições, aproxima-se de África. Na dúvida, deixo-lhe mais um trecho do livro de José Tavares. “A Europa, como continente, foi considerada ‘frágil, inquieta, contraditória e inconsistente’, com um ‘passado piromaníaco’ caracterizado por ‘uma guerra civil contínua’. Muito antes das carnificinas do século XX, George Washington pediu aos seus conterrâneos que mantivessem a distância dos ‘enredos europeus’ e Thomas Jefferson apelidou a Europa de ‘campo de matança’. Walt Whitman, poeta, apelidou-a de ‘covil de escravos’.”