Solidariedade e a ética ao cuidado

16 Jun 2019 / 13:02 H.
Luís Kandjimbo

Na quinta feira antepassada, a Televisão Pública de Angola emitiu um programa de reportagens que, sem qualquer surpresa, permitiram confirmar o modo como os dirigentes, líderes e trabalhadores das instituições públicas revelam o seu menosprezo por alguns valores morais que modelam o comportamento dos cidadãos angolanos em geral. Estou a referir-me concretamente ao cuidado e à solidariedade.

Aquelas imagens de mulheres, homens, adultos e crianças no exercício de uma obrigação moral, faziam prova de disciplinadas vigílias ao relento.A este respeito sabe-se que qualquer cidadão cuja personalidade tenha sido formada de acordo com os valores morais e mecanismos de socialização tradicionais angolanos tem perfeita consciência do que significa cuidado e solidariedade.

A prática moral dominante em Angola e que constitui o ethos da comunidade angolana assenta num repertório literário, narrativo, proverbial e poético.Aí residem os fundamentos antropológicos que permitem compreender os comportamentos que as imagens proporcionaram.

O comunitarismo de que aqui se trata não tem muito a ver com as teorias comunitaristas americanas.

De resto, o conceito de comunidade que está na origem das referidas teorias viria adquirir uma proeminência na filosofia política e filosofia moral apenas no século XX, após os debates desencadeados com publicações de alguns autores norte-americanos, entre os quais Alasdair McIntyre, Daniel Bell, Charles Taylor Michael Walzer e Michael Sandel. De um modo geral, o bem comum torna-se um critério definidor, distanciando-se das teorias liberais que advogam a neutralidade atomista do indivíduo, reveladora de uma perspectiva autorefutante.

Contrariamente às doutrinas ocidentais que se confrontam com o liberalismo que se centra no reconhecimento exclusivo das pessoas vivas, a ética comunitarista africana engloba os mortos e os antepassados.Por essa razão, o pluralismo de concepções éticas africanas permite identificar regularidades que importa estudar.

Os filósofos morais africanos têm vindo a dedicar-se aos problemas suscitados, especialmente no contexto da vida urbana actual.São vários os autores que no continente africano se debruçam sobre a problemática, isto é, o lugar da comunidade na ética africana.Além dos filósofos ganenses Kwasi Wiredu, Kwame Gyekye, destaco aqui a obra do filósofo e teólogo do Congo Democrático, Bénézet Bujo que formula o fundamento principal da ética africana a partir de uma locução em latim que refuta o enunciado cartesiano do «cogito ergo sum»,

penso, logo existo. Para Bénézet Bujo a enunciação desse princípio tem outra formulação em África: «cognatus, ergo sumus» (sou conhecido, logo existo), na medida a existência de um indíviduo só faz sentido na relação com outros membros da comunidade.Sujaz aí a convicção segundo a qual a acção de uma pessoa torna-se mais efectiva quando é suportada pela solidariedade de outros seres humanos.

No dizer de Bénézet Bujo, o princípio da solidariedade não se traduz necessariamente na perda da identidade do indivíduo como se demonstra através na literatura paremiológica de que os provérbios são uma expressão.Por essa razão, a transmissão de virtudes comunitaristas que modelam o carácter das pessoas têm uma forte carga anamnésica que se exprime através dos mecanismos da tradição consistindo na actualização da memória individual e colectiva. Assim, tudo o que se transmite aos indivíduos emana de saberes cujas fontes são provérbios, aforismos, mitos, parábolas, narrativas ficcionais que decantam a experiência imemorial das comunidades.

Pode dizer-se que os processos de socialização que ocorrem nos diversos contextos da vida no nosso País deixam marcas indeléveis na formação individual, apesar do inexistente reconhecimento institucional de tais processos.Nisto reside a incredulidade relativamente à eficácia os processos de socialização do ponto de vista formativo.

Deste modo, há quem duvide da autenticidade desse comportamento colectivo através do qual se manifesta a adesão a virtudes morais, tais como a generosidade, a solidariedade, a hospitalidade e a caridade. Os doentes não devem ser abandonados pelos outros membros da comunidade (parentes, vizinhos ou amigos). Trata-se de uma regra de conduta obrigatória que sustenta a prática moral.

Deste modo, é possível explicar a causa do número de pessoas que dormem à porta dos hospitais e das clínicas, quando aumenta a incerteza a respeito dos cuidados prestados aos doentes a que se sentem vinculados por força de uma obrigação moral.Mas o fenómeno da experiência moral angolana já é observável nas comunidades, residências familiares, bairros e aldeias quando ocorre algum infortúnio. Por isso, as vigílias à porta dos hospitais não podem ser proibidas com recurso a medidas de carácter repressivo, na medida em que constituem factos eminentemente morais.

É do agir moral em prol da vida boa que se trata.Sendo assim a prática moral deve ser objecto de um conhecimento sistemático e especializado. A literatura e a ética são dois domínios desse conhecimento.

A ética é o nível de reflexão filosófica sobre a experiência moral. Entre as obras literárias temos os provérbios que com a sua estrutura breve e densa constituem um canal para ter aceso à moralidade de uma determinada comunidade.A hermenêutica dos provérbios e a avaliação crítica do seu lugar na transmissão do conhecimento moral confirma a importância da dimensão narrativa na ética do cuidado e formação do carácter e das virtudes.

Da literatura oral Umbundu extraimos alguns exemplos que ilustram o vigor dos juízos morais sobre o cuidado e a solidariedade: Etela limosi kalikwata ombya, olumema lumosi kalumali osule.(Uma pedra não suporta a panela, um grão não produz fuba.); Ondjo ondunda yolondopi, elende ondunda yatosi (Uma casa é um conjunto de adobes, a nuvem é um conjunto de gotas de água.); Ocisonde cimosi kacili onjamba (Uma única formiga não devora o elefante.); Kwato oko lukwene, lika lyove cukupõlã (Segure a coisa com o outro, sózinho pode escapar-te das mãos.); Onjo yatungiwa lowiñgi, kayipengapenga uvelo (Uma casa construída pelo povo, não tem a porta empenada).