João Lourenço tem a chance de transformar Angola

A mudança que temos hoje em relação a um passado recente reflecte-se com uma maior fiscalização, e graças a liberdade de imprensa, a democracia, as redes sociais e ao Estado de Direito hoje temos mais informações. Existe a política da boa governação que serve para blindar a nação em relação aos seus políticos.

Angola /
21 Out 2019 / 15:55 H.
Edgar Leandro Avelino

No (discurso sobre o) Estado da Nação... De todas as mudanças importantes ocorridas no país, as menos notórias - embora talvez as mais significativas - são as de realidade socio-económica. Compreensivelmente, houve um grande foco em comparar a gestão e governação política dos anos anteriores, como referência 2002, 2014 ou 2015, onde aumentaram as expectativas do cidadão que quer uma Angola nova e acredita no actual governo liderado pelo Presidente João Lourenço.

Sabemos que tudo começou em 2017 com o que todos os angolanos acreditaram ser uma mudança geracional da liderança em Angola.

A maioria dos cidadãos angolanos presume que pouco mudará. Embora João Lourenço tenha assumido a mudança em meio de turbulência, foram comprovados factos de coragem e boa governação no ataque aos monopólios de telecomunicações e cimento, à exoneração de altos dirigentes, a demissão e detenção de pessoas (in) tocáveis no contexto angolano.

No passado mês de Setembro, João Lourenço completou dois anos de mandato como Presidente da República de Angola. A boa governação é o foco, como afirma o Presidente. Então, ela deve ser rigorosamente fiscalizada. Note-se que, as virtudes próprias do governante, que não implica ser bom, moralmente correcto ou fazer o bem, são características vistas na maior parte dos governantes. Se o governante considera que deve fazer o mal para manter-se no poder ele assim o fará.

Outros ainda há, que se beneficiam da sorte ou o acaso para governar. Estes estão munidos de características que não dependem das suas próprias acções. Os Órgãos Auxiliares do Presidente da República não podem por em risco o bom desempenho do seu Líder.

O BNA deve transmitir os dados reais ao que se regista naquilo que tem impacto no dia-dia do cidadão. Estima-se que em 2022 Angola possa voltar a ter taxas de inflação anuais de um só digito. Enquanto isso, o que acontecerá até lá, se hoje temos Taxas de Câmbio a rondar os Eur 496, sem qualquer previsão positiva para 2020 ou 2021?

Medidas de automatização de processos, como o Guichet Único de Empresas Online, que não funciona e é publicitado (talvez porque tenha sido questionado). As visitas às principais unidades hospitalares que foram contempladas inclusive, de verbas extraordinárias continuam a viver cenários de desumanização a níveis altos, também não mereciam ser publicitadas.

O que acontece em Angola é importante. As nossas reservas, podem subir novamente se João Lourenço convencer as multinacionais a aumentar os seus investimentos.

Angola também é o centro da nova "governação transparente" para a África, um país onde a China e outros gigantes mundiais fizeram grandes incursões. João Lourenço abraçou o Oeste, conseguiu recuperar as relações com as empresas de petróleo ocidentais e buscar ajuda - e, portanto, escrutínio - do FMI.

O Presidente reconheceu no seu discurso no Estado da Nação que, apesar do seu compromisso nos dois primeiros anos do seu mandato, ainda há muito a ser feito para atender às necessidades da população.

"Embora me tenha esforçado ao máximo para implementar o planeamento do governo, estou ciente de que ainda há muito a ser feito para atender às necessidades do povo",

O discurso do Presidente devia focar-se mais em informar sobre a real situação do desemprego, da saúde e da inflação, traduzindo uma objectividade que num bom entender também favorece a sua governação, como é o caso por exemplo do Programa de Transferências Monetárias para as famílias mais pobres e de modernização de todo o sistema nacional de protecção social, que para os angolanos vai ao encontro da realidade da maior parte da população.

Faltaram os resultados (verdadeiros) em alguns sectores e a visibilidade ou publicidade, se assim podemos chamar, dos outros resultados que sabemos bem, que foram implementados e conseguiram satisfazer algumas necessidades sociais.

Também não ficou claro qual será o impacto que as mudanças terão em cerca de 30 milhões de angolanos. A cortina está a fechar-se para a era antiga. A esperança - ainda apenas uma esperança - é que ela se abra em uma nova.

A mudança que temos hoje em relação a um passado recente reflecte-se com uma maior fiscalização, e graças a liberdade de imprensa, a democracia, as redes sociais e ao Estado de Direito hoje temos mais informações. Existe a política da boa governação que serve para blindar a nação em relação aos seus políticos.

Neste sentido, a política refere-se a vida em comum - as regras e a humanização dessa vida aos objetivos da comunidade.

É necessário que o bom governante vigore, para não tornar o cidadão angolano descrente da política. Portanto, devemos resgatar o bom governante e aumentar a nossa percepção de que a política é uma actividade essencialmente ética e que a relação entre ética e política não só é possível, como necessária.

A relação entre ética e política pode significar a melhoria da qualidade de vida da população, na qualidade de serviços prestados pelo Estado.