Há que dobrar o cabo da Boa Esperança

Angola /
20 Mai 2019 / 14:56 H.
Ana de Sousa

Quando nos falam de um futuro brilhante, não há mais nada que queiramos ouvir, só queremos viver no entusiasmo dessa possibilidade, mas os oráculos internacionais são identidades dúbias e volúveis, e nunca desinteressadas.

Esta semana, a Fitch Solutions, empresa do grupo Fitch, que inclui a Fitch Ratings, tida como uma das agências de notação que os investidores levam a sério, garantiu que “os esforços sobre uma reforma estrutural significativa, que estão a ser dados sob a liderança do novo Presidente João Lourenço, sugerem um futuro brilhante para Angola, apesar de, a curto prazo, as reformas poderem aumentar a instabilidade dentro do MPLA ou enfrentar problemas na implementação”.

Vamos deixar para depois a eventual fragmentação dentro do partido do poder, aliás vamos desvalorizá-la porque os recentes acontecimentos nos levam a isso e, também, porque estamos em vésperas de um congresso extraordinário, a partir do qual, acreditamos, nada poderá ficar na mesma e em que se deve romper com a proselitista “renovação na continuidade” que, a continuar, arrastará o MPLA para um qualquer pântano de interesses perniciosos que ninguém entenderá e, pior, a ninguém beneficiará.

O compromisso geracional não passa por ter os mais novos reféns dos mais velhos; há um caminho a partilhar. Um partido político, agremiador e congregador de massas, tem de ter capacidade de interpretar sinais e, mais do que corrigir o que está mal, posicionar o partido, sobretudo quando é arco do poder, numa qualquer vanguarda. Caso contrário, preocupar-se-á em gerir derrotas e não em conquistar vitórias.

Pela primeira vez, vou deixar-me contaminar pelo exemplo português que, naturalmente, segui de perto. Assisti à ascensão dos chamados “jovens turcos”, hoje, ministros e secretários de Estado, em redor de um primeiro-ministro essencialmente político e de um ministro das Finanças para lá de bem preparado, que tomou nas mãos, sofregamente, as finanças do país. Ou seja: há um grupo sólido, entre experimentados políticos e políticos em construção, que funciona e que evita, ao mesmo tempo, a deliquescência do partido do poder, que se prepara para eleições com sondagens favoráveis.

É também por isto que olhámos para a recente posse da nova administração da Sonangol – e quan

do, mais uma vez, o Banco Nacional de Angola (BNA) admitiu que o sector petrolífero representa “mais de 95% das exportações totais e 20% do Produto Interno Bruto (PIB)”, deixando a economia “vulnerável a choques externos”, devido à volatilidade do preço do petróleo, isto é, colocando na petrolífera estatal um peso incomensurável – com mixed feelings.

Em concreto, e a título de exemplo, falamos de duas realidades geracionais, e até pessoais, na Sonangol. Por um lado, temos Sebastião Gaspar Martins, engenheiro de Minas, há 40 anos na petrolífera do Estado, carregando consigo a experiência mas também os vícios de uma empresa, em que urge mudar o paradigma de gestão e que está em profunda reestruturação.

Gaspar Martins tem ainda o incómodo de ter feito parte de várias equipas de gestão (Manuel Vicente, Francisco Maria de Lemos e Carlos Saturnino), e de não ter tido a capacidade de afrontar ou de persuadir o presidente do Conselho de Administração que o caminho devia ser outro – vamos admitir que o fez em privado e, dessa forma bem-intencionada, justificar a sua recondução e ascensão ao topo da Sonangol. No entanto, será sempre legítima a pergunta: o que fará ele hoje que não foi capaz de fazer ontem?

A nossa esperança está num advérbio de afirmação: decerto... temos do outro lado Osvaldo Macaia que esperamos que não se deixe acomodar com as benesses e outras conveniências e que seja capaz de opinar e, quem sabe, romper com grelhas de gestão oxidadas e gastas, mais curioso e atento, olhando para outras realidades nesta área e contribuindo para encontrar um modelo angolano de gestão, que possa contribuir para o tal futuro brilhante que os analistas da Fitch preconizam, sabendo que o desenvolvimento do País está visceralmente ligado ao percurso da Sonangol. Macaia tem 35 anos, é jurista, com formação sólida, mestrando em Ciências Jurídico-Empresariais, na Universidade de Coimbra, integrou vários grupos de trabalho para reformas importantes, tanto no sector tributário como, mais recentemente, no grupo técnico de reestruturação do sector dos petróleos, que levou à criação da Agência Nacional de Petróleo e Gás e Biocombustíveis (ANPG).

E se este for o padrão do Presidente João Lourenço, do mal o menos, porque evidencia a preocupação de compaginar o velho com o novo, num Conselho de Administração, e noutras estruturas do Estado, em que se espera que os novos não reverenciem os mais velhos e que os mais velhos estimulem os mais novos a dizerem o que pensam – porque, antes de chegarmos a esse el dourado prometido pela Fitch, o País tem sérios desafios que os analistas também não deixaram escapar.

E vamos usar outro advérbio, agora de dúvida: porventura... há desafios mais importantes e que estão para lá da fragmentação dentro do partido do Governo, no seio do qual “muitos membros beneficiaram fortemente da presidência de José Eduardo dos Santos, e estas figuras podem opor-se abertamente à mudança e formar um grupo para preservar os interesses económicos e políticos que têm”. Esses desafios são a corrupção – um processo que poderá levar uma década para colocar em níveis que não comprometam as gerações a seguir –, o desemprego e as desigualdades.

Eis as principais ameaças, e desafios, que se impõem à estabilidade governativa. E isto mesmo que a Fitch Solutions posicione Angola nos 55,9 pontos no Índice de Risco Político, o que, comparando com a média de 49 pontos da África subsaariana, é “elevado para padrões regionais”.

Não querendo fazer de Velho do Restelo, muito pelo contrário, diz-nos a prudência e o bom senso que há um cabo da Boa Esperança para dobrar. Olhando para lá, para a África do Sul, constatamos que o partido histórico da democracia sul-africana tem vindo a cair na percentagem de votantes. A acontecer ao MPLA o que se está a verificar com o ANC, pelo menos que o Presidente João Lourenço possa dizer: durante o meu(s) mandato(s), em Angola cumpri o que disse no meu discurso inaugural – fui o Presidente do desenvolvimento, put the country on the right track.