Geopolítica/geoestratégia, fluxos de informação e gestão dos media (fim)

Então como se explica a compreensão de que a comunicação social influenciou a percepção do conceito que se tem hoje de geopolítica/geoestratégia?

China /
20 Set 2019 / 22:29 H.
Altino Matos

Ao se analisar os fluxos de informação, desenvolvidos no quadro da geopolítica/geoestratégia, é fundamental observar que apenas se pode considerar informação como tal, ao se ter domínio da sua origem, objectivo e contexto. Quando assim não é, está-se em presença de dados que sinalizam as intenções, mas não dão o significado das acções. Em tais circunstâncias, a percepção do desenrolar dos acontecimentos é ilusória, isto é, o conhecimento é aparente.

Como a apreciação do fenómeno é no esteio dos medias, onde as partes envolvidas trabalham tendo conta a psique social, os dispositivos técnicos e tecnológicos são usados para a guerra psicológica, a mais comum das guerras no novo tempo, relegando o uso das armas convencionais para o último esforço. No entanto, para se responder a questão como se explica a compreensão de que a comunicação social influenciou a percepção do conceito que se tem hoje de geopolítica/geoestratégia (?), é preciso levar em consideração que os Estados e as organizações de monta têm vida própria, com dinâmicas peculiares, onde firmam os seus interesses e, obviamente, procuram tirar a maior vantagem possível usando as vias, não diria mais fáceis, mas mais rápidas.

Estes interesses são assistidos nas suas dinâmicas pelo engajamento técnico da diplomacia e da inteligência, os verdadeiros pilares dos Estados e das organizações na política internacional. Então, sempre que um Estado, movido pelos seus interesses directos ou indirectos, quando solicitado pelas suas organizações de monta que actuam em determinado corredor internacional, sente que os meios a seu dispor não são suficientes para exercer a influência desejada sobre os segmentos afins, este mesmo Estado pode optar em usar meios de pressão como financeiro, económico, político ou militar.

Se forem usados tão-somente os corredores da diplomacia ou da inteligência, os resultados podem ser alcançados, consoante a natureza do Estado que exerce a pressão, se for poderoso de mais, por exemplo. Acontece que as decisões políticas são sempre decisões estratégicas. Isto é, os Estados levam em consideração nas suas decisões: país, grupo de países, regiões, mercados, alianças, parcerias estratégicas, finanças e economia internacional, etc., etc.

Voltando à fórmula velocidade/espaço/tempo, depreende-se, facilmente, que a opção dos Estados para materializar as suas decisões políticas e estratégicas passa pela comunicação social. Os medias têm tudo o que é preciso, os dispositivos técnicos e tecnológicos, bem como a capacidade de influenciar, basta que se regule o ângulo. Assim os processos de comunicação produzidos pelos medias podem, conforme o desejo dos Estados, produzir medo ou elevar os níveis de confiança em relação a determinado assunto.

Com base em tais dinâmicas, os Estados reconhecem que as jogadas da geopolítica/geoestratégia têm maior impacto no palco da comunicação social, que, mais do que mero facilitador, revela-se um verdadeiro actor, consagrando as políticas de acordo os interesses fundamentais.

Vejamos como as coisas acontecem na prática. Caso de apreciação: os acontecimentos no estreito de Hormus, por ser o mais recente, e que opôs os Estados Unidos ao Irão.

Numa abordagem sucinta, vamos ao exercício. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao chegar ao poder, prometeu aos norte-americanos “§uma América grandiosa”¨. Trump desenhou as suas políticas e, no capítulo internacional, passava por começar de novo. Começar por um novo tratado sobre o clima, que reconheça não haver perigos para a humanidade; conseguir um novo acordo comercial com a União Europeia, com largas vantagens para a América; bem assim, com uma diferença aqui ou ali, o mesmo serve para a China.

Sobre o Irão, Trump também não via nenhuma garantia com o acordo nuclear e, então, rasgou-o. Dentro de todos os outros circuitos é possível o trabalho árduo da diplomacia e da inteligência. No caso do Irão, não. O Presidente norte-americano, ao analisar profundamente a questão, reconheceu não haver êxitos na pressão exercida sobre o Irão. As sanções económicas ou políticas não resultavam. E, o mais preocupante, o Irão não enviava sinais de querer conversar directamente com os Estados Unidos. Tramp entendeu que a pressão devia ser endurecida, dotá-la de um ar mais ríspido. A simulação da preparação de um acto de guerra mostrava-se, dentro dos cálculos, a mais consistente. Washington avançou para provocações efectivas, primeiro com o “§drone”¨, depois com o arresto de um petroleiro iraniano, missão ao cuidado de Gibraltar. Seguiram-se outros eventos.

Teerão respondeu à mesma moeda. Abateu o “§drone”¨ e arrestou um navio britânico. Os meios de comunicação ocidentais em tempo record se ocuparam da situação. Criaram o cenário mais provável: América pode atacar o Irão. As antenas dos medias foram apontadas para o epicentro, captando tudo e reproduziram os acontecimentos para todos os lugares do mundo. Os fluxos de informação não só estavam controlados, como também continham o conteúdo devidamente calculado para manipular os processos de comunicação política e militar. A geopolítica/geoestratégia era suportada em tempo real pela estratégia de comunicação de massas. Os medias estavam encarregados de impor o medo ao grande público dentro e fora do Irão com o objectivo de alterar o estado de forças em desfavor do anel que suporta Teerão.

Jogadas de alto risco foram realizadas na esfera de influência da comunicação social. O Irão resistiu. O Presidente Trump sublinhou que o homólogo iraniano é um “§grande jogador”¨, e aceitava conversações directas com Hassan Rouhani. Washington, com o “§convite”¨, reconheceu capacidades no seu adversário, não a militar, mas a de manipulação. A sua estratégia foi copiosamente anulada.

O Irão demonstrou, assim como os Estados Unidos, que o seu governo também conta com ajuda de um sistema de comunicação política altamente funcional e, mais do que isso, a sua República tem um sistema nacional de comunicação que garante a existência de um código construído com os seus valores mais supremos, não permitindo alienação sempre que estiver em causa o Estado.

O uso dos medias na geopolítica/geoestratégia, requer uma gestão bem afinada dos órgãos, que permite o controlo dos fluxos de informação. Como vimos acima, os países com sistemas nacionais de comunicação bem consolidados resistem melhor ao teste de estresse. Pois evitam que a pressão exercida, através da comunicação social, derrube a sua defesa psicológica.

*Professor Universitário