Geopolítica/geoestratégia, fluxos de informação e gestão dos media (Parte I)

Além do interesse político e militar, económico e financeiro, a geopolítica/geoestratégia, enquanto fenómeno familiar nos corredores da política internacional e da cooperação multi/ou bilateral dos Estados, também é um fenómeno da comunicação social pela sua dupla característica, nomeadamente a de ordem mediática, responsável pela exposição de cenários e forças mobilizadas, como pela de ordem dos fluxos de informação, responsável pela manipulação dos quadros em perspectiva.

10 Set 2019 / 17:05 H.
Altino Matos

Apesar de suscitar grande curiosidade, o tema não é novo. Porém, existe como motivo de interesse desde o tempo ‘imperial’, com resultados registados desde a Grécia antiga aos tempos dos fortes e das cruzadas, desenrolando-se pelas regiões da Europa Medieval, Médio e Grande Oriente.

No entanto, ao longo dos anos, a sua abordagem foi sujeita a interpretações várias que mostraram diversos pontos de vista, com influência nos seus ângulos, tendo derivado no conceito mais actual de que se tem registo no tempo histórico e espacial.

É pois no capítulo espacial em que a geopolítica/geoestratégia ganha contornos tridimensionais. Quanto à: dimensão, abrange o maior número de actores, Estados e grupos organizados; extensão, enraíza-se em todos os sectores, principalmente os conexos; interdisciplinaridade, afecta toda a cadeia de interesses à volta.

Esta conjugação diferencia a sua compreensão, hoje, daquela que se tinha em tempos idos.

A sua maior compreensão, nos termos das características acima reflectidas, é encontrada nos fluxos de informação, os quais, nos nossos dias, com o modernismo dos meios de comunicação de massas, permitiu um aumento do volume da informação processada e uma ampliação tão abrangente quanto ao seu volume.

Os fluxos de informação correspondem à conjugação da fórmula velocidade/espaço/tempo.

Vários teóricos dedicaram-se ao estudo da informação na cadeia de comunicação de massas. Mas foi Harold Innis (1894-1952) que chegou a uma conclusão plausível. Previu, por exemplo, que, se com o processamento da informação se pretende que algo perdure no tempo, a mesma deve ter como dispositivo um meio pesado (uma pedra). Mas, se se pretende que a mesma abranja uma área, tomando um determinado espaço, então deve ter como dispositivo um meio leve (um jornal). Desta maneira, o teórico desmistificava de vez a importância da comunicação social na estabilização das sociedades.

Ao desconstruirmos a fórmula velocidade/espaço/tempo, percebemos que a percepção que temos hoje do conceito geopolítica/geoestratégia foi influenciada pelos media, decorrente das suas determinantes que se foram

apurando de tempo em tempo com o

O desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação. Os acontecimentos passaram a chegar aos grandes centros de decisão quase num ‘piscar de olhos’, comparandose aos feixes de luz solar. Para trás ficava, assim, a percepção de ‘longe’, dando lugar ao conceito de distância-limite. A lógica obriga-nos, então, a buscar a incontornável resposta: a que distância estamos do acontecimento?

Para se obter tal resposta, que de facto é uma grande preocupação de Estados e organizações, temos que delimitar o ‘espaço’ e o ‘tempo’. Enquanto o espaço nos dá a área de influência e suas possíveis derivações, o tempo de Innis aqui evolui de um mero registo para a história, para um factor central que determina as dinâmicas do acontecimento, a qual, por sua vez, condiciona as acções dos Estados e organizações. Parece algo complicado, admita-se. Mas não é.

Basta que se tenha em conta que os tempos da sociedade são os tempos

determinados pela comunicação social. Numa forma mais simples, percebe-se como todas as dinâmicas andam à volta do tempo noticioso, que de 24 horas passou para quase metade do seu tempo. Hoje, a informação noticiosa é actualizada de minuto a minuto. Por aqui se explica, também, a mudança da cadeia de valor social.

Tudo passou a ser tratado de forma tão leve, que o próprio valor das coisas foi degolado pelo tempo de Innis. Vivemos no tempo do imediatismo; do é agora, ou nunca! Para não perdermos o fio, vamos tomar o foco do nosso exercício.

Admitindo, porém, que a cadeia de valor da comunicação social é de resto a que fundou a nova percepção que se tem do conceito. A verdade é que geopolítica/geoestratégia existe antes da comunicação social. Portanto, existe o espaço geográfico, assim como existe o domínio político sobre este espaço.

Então, como se explica a compreensão de que a comunicação social influenciou a percepção do conceito que se tem hoje de geopolítica/geoestratégia? Antes, temos que levar em consideração que os Estados e as organizações de monta têm vida própria, com dinâmicas peculiares, onde firmam os seus interesses e, obviamente, procuram tirar a maior vantagem possível.

l.