Mais que um negócio, uma soberania

China /
20 Mai 2019 / 16:13 H.
António Pedro

Sonangol nunca será encarada apenas como uma empresa. Jamais será encarada na vertente meramente de gestão pura e administração dura. É mais que todas estas valências. Há um novo conselho de administração. A realidade provou que gerir a petrolífera exige algum tacto, algum político, para medir nuances, prever cenários que só dizem respeito ao seu papel empresarial.

Sobretudo o social de que ela alimenta com suas receitas e impostos. É o normal para uma empresa tão estratégica que dela depende até parte da soberania. Não é só por cá que esta realidade sobressai. É assim na China, com os gigantes petrolíferos Sinpec e CNPC, no Reino Unido com a Shell e a BP, nos EUA com a Chevron e a Exxon Mobil, em França com a Total e ainda na Rússia com os gigantes Rosneft e Lukoil, independentemente de Estado deter ou não uma participação accionista.

A Sonangol vai assumir um papel similar a das companhias citadas, com foco no sector energético proporcionando lucro ao(s) accionista(s). A nova equipa está consciente que obter receitas na qualidade de concessionária é coisa do passado. Terá de lutar com os parcos recursos que tiver ao seu dispor para transformar a empresa num gigante do sector energético, como fizeram os franceses, os norte-americanos, os britânicos.

Contas feitas não será fácil, principalmente num cenário de quase austeridade com a insistente afinação política de pressupostos macroeconómicos, desde a revisão do orçamento público com preço do crude para baixo. Não será fácil. Se a Sonangol for um fracasso, o que não se acredita depois da situação desastrosa ocorrida há semana e meia, o País fracassa e aí será um caos de credibilidade para o governo e de um ambiente de atracção de investimentos duvidoso.

Os negócios não petrolíferos, o que fica com a empresa e o que não fica. A banca, de um modo geral, está em reestruturação e a petrolífera nunca teve uma estratégia definida para o sector conforme o seu antigo presidente. O que fará a nova gestão? O poder político está alento aos cenários previsíveis e os resultados que se esperam devem ser, é o que se quer...animadores. Há duas décadas uma renomada marca europeia de automóvel apresentava um novo modelo com o slogan “só não inovamos no número de rodas”. A Sonangol só vai ditar os preços do barril de crude, mas o resto pode fazer e alcançar êxitos. Fica um desafio para a nova equipa. Se não se der conta do recado, tudo volta ao ponto de partida.