É preciso manter as reformas políticas a pensar no bem-estar

Nicolau Maquiavel é claro: faça o mal de uma vez e o bem aos poucos. Fazer reformas num modelo de gradualismo é arriscado, política e economicamente.

Angola /
30 Set 2019 / 18:11 H.
António Pedro

Há seis anos, numa sala de aula, bancários frequentavam um mini-MBA em Banking na cidade de São Paulo, Brasil, quando um director de Crédito do segundo maior banco do país questionou o formador, um consultor para a América Latina do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, como se podia interpretar o rumo da economia da Argentina, à época sob gestão política de Cristina Kirchner.

O economista Roberto Luís Troster respondeu ao bancário com um exemplo. Disse que era a melhor forma de enquadrar o que se passava no país do tango. Certo indivíduo foi para uma casa da tolerância e pediu a proprietária para lhe indicar uma das funcionárias com maior tarimba na prestação de serviços. Passados poucos minutos, a mesma saiu dos aposentos aos gritos, fugindo. A dona, observando o cenário, pensou: nunca nenhum macho colocou em causa a credibilidade desta casa.

Seguidamente, mandou outra mais experiente ainda. Em pouco tempo, saiu também dos aposentos às corridas e aos gritos, com cabelos soltos. A proprietária decidiu ela própria ir executar o serviço, para demonstrar que não existia macho capaz de descredibilizar o bom nome da casa.

A mulher e proprietária, ao entrar aos aposentos, deparou-se com o homem em questão sentado a exibir notas da moeda local e a reclamar: afinal vocês não aceitam pesos argentinos? Estava assim descoberto o problema da fuga das senhoras aos gritos.

Quando uma moeda despenca, a política monetária é refém da política fiscal, com um empresariado privado a lutar por meios próprios, a credibilidade do país fica em causa. Enquanto o Instituto Nacional de Estatística e Censo (Indec), órgão oficial do governo argentino, dizia que a inflação em 2013 era de 10,9%, as principais consultorias independentes locais contrariavam para, pelo menos, 28%, insinuando que os números eram maquiados.

O Conselho Executivo doO Conselho Executivo do Fundo Monetário Internacional emitia no mesmo ano uma declaração de censura à Argentina, por considerar insuficiente a melhoria de qualidade dos dados oficiais do país. A Argentina, que era um grande exportador histórico de commodities, estava a importar produtos básicos, incluindo tomates do Brasil, para conter a alta de preços. Economistas defendiam que o país do tango não possuía uma estrutura produtiva diversificada e competitiva capaz de gerar superávites na conta corrente do país - quando há mais divisas a entrar no país do que a sair.

Diante de uma crise sem reformas profundas à vista, até 2015, a então presidente Cristina Kirchner, impedida de concorrer a um terceiro mandato por determinação da Constituição, e surge um candidato com propostas para inverter o quadro económico-social do país, que vence as eleições de 2015. Mauricio Macri, que era prefeito da cidade de Bueno Aires, um político e líder de centro-direita, acabou eleito presidente com 68,67% dos votos, numa eleição renhida que levou candidatos à segunda volta, um cenário que sucedeu pela primeira vez na história de eleições do país.

Com o fim de 12 anos de mandato da família Kirchner (Néstor Kirchner de 2003 a 2007 e Cristina Kirchner de 2007 a 2015), começava então a implementação de duras reformas para mudar o rumo da economia da Argentina, com forte impacto previsto para área social, pelo empresário de 56 anos, Mauricio Macri, expresidente do clube Boca Juniors e líder de um partido de centro-direita opositor do então governo de Cristina Kirchner.

“É um dia histórico (para se) construir uma Argentina com pobreza zero, derrotar o narcotráfico e melhorar a qualidade democrática”, dizia Macri para milhares de simpatizantes ao comemorar a vitória. O político marcou pontos positivos na governação de 2015 até ao presente, a defender a abertura de investimentos estrangeiros, a diminuição da infLação para um dígito em dois anos e o levantamento dos limites das exportações do sector agro-pecuário, bem como a criação de uma agência nacional contra o crime organizado.

Mesmo com fortes incertezas nas previsões económicas, conseguiu atrair o FMI para a Argentina, com um empréstimo histórico de 58 mil milhões USD. Se Angola conseguiu 3,7 mil milhões USD, Mauricio Macri teve 16 vezes mais oportunidades. Os investidores estrangeiros começaram a acorrer para a Argentina, aliás antes mesmo de o FMI anunciar o pacote.

Reformas sociais estavam em curso, mas o presidente fracassou no momento de consolidar reformas. Provavelmente, ao aproximarem-se eleições na Argentina, preferiu largar um pouco o alicate de pressão sobre as reformas económicas para que a oposição não usasse alguns efeitos negativos das políticas de austeridade no jogo eleitoral.

O economista Roberto Luís Troster, que citamos no início, diz que, para estas situações, Nicolau Maquiavel é claro: faça o mal de uma vez e o bem aos poucos. Fazer reformas num modelo de gradualismo é arriscado, política e economicamente. Para as eleições de Outubro próximo na Argentina, dentro de menos 30 dias, não se acredita que Macri - cuja gestão foi marcada pela austeridade económica com freio ao aproximar-se de eleições - seja eleito presidente, porque a oposição, que até 2015 era governo, voltou a carga às eleições prévias simultâneas e obrigatórias do passado dia 11 com o candidato Alberto Fernández (47% contra 32% de Macri), escolhido por Cristina Kirchner que, por sua vez, é vice do futuro presidente do país.

Tudo indica que Kirchner regresse ao comando da Argentina numa versão bem trabalhada de vice-presidente. Os mercados financeiros reagiram mal à derrota de Macri. A situação afectou juros, infLação e a moeda do país, face ao dólar. Despencaram. Há receios do FMI e dos investidores.

Uma mudança de poder do centro-direita para o centro-esquerda que levou o país à bancarrota até 2015 periga o pacote de 58 mil milhões USD assinado com FMI. O pecado original de Macri, de frear nas reformas para, provavelmente, ganhar eleições, é uma lição para Angola. As reformas em curso no nosso país, que são ingredientes amargos para adocicar o bem-estar dos angolanos a partir do curto prazo, devem continuar na mesma lógica levada a cabo pelo Governo de João Lourenço.

Recuar para vencer eleições autárquicas e/ou gerais é um erro. Acredita-se que a implementação do PIIM, até ao fim do ano corrente, vai começar a gerar empregos, o poder de compra vai aumentar, o consumo vai ganhar fôlego e o mercado interno vai reagir de forma positiva. O PSD de Portugal lançou duríssimas reformas com Passos Coelho, como primeiro-ministro. Ainda assim ganhou eleições – só não formou governo. Não se deve refrear com as reformas.

*Director do Jornal Vanguarda