Sobre as ideologias e a angolanidade

Após três semanas de interregno, cá estamos para contribuir com saber e conhecimento sobre o tema da angolanidade e as ideologias partidárias resultante de um estudo feito há alguns anos, mas cuja essência mantém-se actual face ao que ocorre no quotidiano.

Luanda /
28 Jun 2019 / 15:31 H.
Patrício Batsikama

A recolha dos ‘espaços sociais’ em Luanda apresenta, aparentemente, os mesmos estratos socioculturais que encontramos nos ‘locais originais’. Mas importa mencionar três grandes incompatibilidades:

(a) de forma geral, as três primeiras angolanidades estagnaram-se nas ideologias partidárias, e as vicissitudes operaram importantes dinâmicas de várias ordens, de acordo com o substracto sociocultural próprio de Luanda, tendo em conta o que a guerra civil proporcionou nos variados espaços angolanos;

(b) as angolanidades nos ‘espaços natalícios’ são diferentes em relação às angolanidades em Luanda, e a relação de forças entre estes ‘espaços’ é assimétrica, com a nítida hegemonia de Luanda;

(c) o sujeito colectivo de origem constrói-se com utensílios tradi-modernos, de forma linear, ao passo que em Luanda há uma interminável concorrência entre multiciplicidades de tempo e pluralidades de espaço, para um tecido societário irmanado e coexistente pela partilha dos interesses. Recolha de campo: 1750 inquéritos escolhidos. Face a esta constatação, não nos parece aconselhável que o nosso tema – que na verdade é a desconstrução de angolanidade: nação, nacionalidade e nacionalismo – seja limitado a amostras de uma Luanda compactada, como apresentamos. Por esta razão, treinamos alguns jovens para auxiliar-nos na recolha de informação numa cobertura nacional. Foram cerca de 1750 inquéritos recolhidos em todas as províncias de Angola, respeitando – relativamente – a proporção populacional de acordo com as províncias e grupos societários.

Embora esses inquéritos não sejam proporcionais à ‘distribuição étnica clássica’, contentamos aqui reunir as informações para reunir condições de responder à pergunta inicial. Em relação as essas recolhas, importa desde já ilustrarmos as características dos inqueridos: Quanto às habitações literárias e sexo, 17 eram analfabetos (cinco mulheres e 12 homens, representando 0,97%), ao passo que no ensino primário eram 199 (91 mulheres e 108 homens, uma taxa de 11,37%). No ensino secundário cerca de 159 (71 mulheres e 88 homens, uma taxa de 9,08%), contra 1375 no ensino superior (701 mulheres e 674 homens, um peso de 78,57%). Já para profissão e sexo, professores do ensino primário e médio eram 215 (82 mulheres e 133 homens), 269 professores do ensino superior (67 mulheres e 202 homens).

O inquérito apurou 998 estudantes universitários (526 mulheres e 472 homens), ao passo que os “sem ocupação/desempregados” eram 268 (193 mulheres e 75 homens). Já para profissão, 15,37% integram ao professorado (a maioria tem licenciatura) e 57,02% frequentam ainda a universidade (a maioria, nas universidades públicas e já estão nos últimos anos de conclusão da licenciatura). Escolhemos, na verdade, que os nossos inquiridos tivessem formação superior visto a complexidade de perceber os conceitos de nação, nacionalismo e nacionalismo. Na próxima edição, contamos abordar a naturalidade de acordo com as províncias de Angola e a forma de distribuição dos 1750 inquéritos distribuídos, que, quando comparamos os dados com o Censo de 1970, percebemos que no Huambo, que era a província mais populosa então, a população diminuiu, sendo que as guerras nesta cidade poderiam explicar tal despovoação.