Parabéns “RAP” pela cidadania musical

Luanda /
04 Out 2019 / 20:59 H.
Patrício Batsikama

Em tese, Yannick Afroman congrega as diferentes correntes dos rappers angolanos e, pela característica da sua proposta, torna-se moralista social “sem ofensa” ao Estado e conselheiro social. O corpo não é musculado (ao contrário dos SSP), mas uma alternativa do Rap (nos padrões de Notorious B.I.G.).

Rhytme And Poetry (Rima E Poesia) é tido como música de “intelectuais”, uma monódia ou vozes homofónicas que opta discurso directo e sobrevaloriza “calão” do gueto que é construção de linguagens da reivindicação e liberdades individuais. Ele traz uma popularidade por duas razões principais: (a) simplicidade linguagética move a maioria popular; (b) opção artística não-elitista que, além da comunicabilidade, trata das questões correntes.

Dai, SSP trouxe uma ruptura, dando voz ao povo sofredor, principalmente a juventude que era maioritária e aglomerava uma densidade demográfica considerável nas cidades. Em 1992, a democracia foi uma realidade em Angola pelo que na música, o Rap assumiu a democratização da música angolana.

Realça-se as questões ligadas à: (a) críticas contra a Ordem política que se resume em: pobreza, injustiças sociais, corrupção, autoritarismo das instituições do Estado; (b) alternativa da Ordem social baseada em: Amor sem interesse, solidariedade, liberdades individuais, libertinagem das “instituições” do museke (bairro), etc.

O SSP lançou o seu primeiro álbum em 1996 com breakdance, em plena implementação do GURN. As letras de SSP (Essa Keta), Olhos café, Pitanga boa e Tell me baby apresentavam novos padrões da juventude animada pelo espírito de diálogo, do respeito mútuo, etc. Em 1998, a banda SSP volta a colocar nova proposta discográfica com temas como “Sim ou Não (tanto faz)”, “Freestyle”, “Abandalho”, etc.

Com essa proposta, a banda faz a sua primeira digressão internacional Portugal, Inglaterra, Moçambique e Cabo Verde.. Quer em 2000, quer e 2003 boas propostas foram lançadas, mas com muito pouco fervor e já haviam novas propostas tímidas aqui e acolá. A verdade é que a influência era maior na cidade, efervescente na periferia/museke como novo espaço de sociabilidade juvenil.

Nesse período, verifica-se a americanização das ideias dos jovens: bem-vestir como músicos americanos, exibição de dinheiro (Dólar) e belos carros como novos códigos do Poder, exibir corpo musculado, etc. Esses padrões redefiniram de tal maneira a concepção da juventude angolana para se integrar na globalização.

Acontece que a topografia social dos integrantes do SSP geografou a elite musical juvenil urbana, a população juvenil idolatrou os novos padrões que ela é modelo. Mas já em 1999 “Filhos da Ala Este” politizou o Rap e apresentou um manifesto da paz. Dog Murras entra nessa cena com rimas ironizando as realidades sociais do museke, e assume uma sátira passiva ao Governo.

Associam-se a ele, dois músicos proeminentes McK O álbum de 2002 é mais precisa, ao passo que em 2006 retrabalha na sua sátira., “Brigadeiro 10 Pacotes” e multiplica-se os “núcleos de sociabilidade” com jovens rappers nos museke. Eles mostram um timbre idiossincraticamente angolano: McK “resmungou” as injustiças sociais num tom politizado e “10 Pacotes” vocifera contra as posições do Governo.

Em tese, Yannick Afroman congrega as diferentes correntes dos rappers angolanos e, pela característica da sua proposta, torna-se moralista social “sem ofensa” ao Estado e conselheiro social. O corpo não é musculado (ao contrário dos SSP), mas uma alternativa do Rap (nos padrões de Notorious B.I.G.). Ainda assim, não lhe faltam “verdades picantes” que beliscam diplomaticamente algumas posições do Governo.

Ele retoma o visual do SSP, mas desta vez, dando voz aos museke marginalizados. Ela refaz McK e 10 Pacotes, mas numa elegância diplomática: “Mentalidade” é seu álbum mais sonante, com uma popularidade desafiadora à Semba. A dada altura Paulo Flores encheu o estádio “Os Coqueiros”, e Yannick Afroman o fez também.

Os kudurista “Os Lambas” fizeram a mesma coisa. A sua popularidade já era inquestionável na cidade. Quer dizer, o estádio “Os Coqueiros” passou a ser barômetro para hierarquizar os músicos mais populares na cidade de Luanda. Yannick Afroman é uma mistura de afirmação identitária e espírito de pertença “Eu sou Ngombo, de Makela do Zombo”, afirma ele nas suas músicas.: critica com polidez a realidade social, aconselha os valores no museke (sociedade), etc. Em 2019 ele ganhou “Top dos mais Queridos da Rádio Nacional” com sua música “Eu sou Bakongo” Com a participação de proeminentes artistas angolanos de origem kôngo: músico Kyaku Kyadaff, vocalista Sam Manguana, extraordinário Socorro, humorista Gilmário Mvêmba, etc.

Mas deixa claro que o espírito de pertença não deve regionalizar a cidadania angolana., o primeiro do género musical: terá sido considerado como aceitação do Rap na cidadania musical angolana outrora dominada pela Semba.

*Historiador e Professor Universitário