A semelhança dos fenómenos sociais

Luanda /
02 Mai 2019 / 11:11 H.
Patrício Batsikama

Como podemos verificar, Luanda é sociologicamente a ‘síntese geográfica’ de Angola, ao ponto de servir como ‘perfeito’ espelho para a verificação das teorias sociológicas relacionadas quer a Angola na íntegra, quer na distribuição espacial de Luanda, como modelo para perceber Angola.

Se assim nos parece verificável sociologicamente, resta-nos então procurar saber se antropologicamente as respostas aos mesmos fenómenos verificados nestes ‘espaços sociais de Luanda’ poderão fornecer os mesmos resultados. Partindo de cenários de manifestações ocorridas em Luanda na época da Primavera Árabe, o caso dos ex-militares, importa salientar dois aspectos: (i) ao longo dos tempos – desde 1961 até 1974 – Luanda era um lugar de insurreições.

Tal, também, foi o caso destes exmilitares nos anos 1980-2002. E, curiosamente, as manifestações continuam frequentes, passados muitos anos, e quase na mesma senda; (ii) os tempos mudaram, os problemas permanecem. A reprodução dos ‘espaços provinciais’ faz com que sejam considerados provincianos, e Luanda permanece metropolitana. Será que os agentes oriundos dos ‘espaços provincianos’ reproduzem os seus espaços sociais, da mesma forma, nos outros lugares ‘ocupados’ em Luanda?

Estes dois aspectos – verificados no terreno – apresentam resultados que nos induzem a servir apenas dos resultados sociológicos como suporte para formular as nossas premissas, ao lançarmos uma pesquisa de ordem antropológica. Em 2011 centenas de jovens angolanos – entre 15 e 32 anos – começaram a manifestar-se contra o regime do MPLA, e especificamente contra a ‘pessoa’ de José Eduardo dos Santos.

Com algumas dificuldades, conseguimos entrevistas interessantes de alguns protagonistas.

Comparando com o que os ex-militares fizeram, existem duas continuidades: (i) desde os tempos coloniais até aos dias de hoje, os insurrectos provêm dos mesmos ‘espaços sociais’; (ii) as reivindicações são as mesmas: desemprego e justiça social. Para prová-lo, vamos partir do tempo colonial. Das fontes consultadas e comparadas, percebemos que este problema da juventude data dos tempos coloniais, por volta de 1961-1974.

Em busca de medidas para solucionar as insurreições em Luanda, o Governador de Luanda, Carlos d’Oliveira Santos, enviava – no dia 24 de Janeiro de 1967 – um relatório detalhado e solucionador ao Inspector Adjunto da PIDE, Abílio Augusto Garção e, ao Capitão Arnaldo Dias Ribeiro (P.S.P.A.), um relatório urgente e confidencial. Notou-se um grande desemprego, subemprego e emprego menos saciável, na visão do empregado. No relatório, lê-se:

(1) “Desordens, roubos, agressões, atitudes ofensivas, tudo vai quase sendo normal”,

(2) “O crescimento constante, agigantada e desordenada desta cidade, só por si, trouxe os graves problemas resultantes do fenómeno do urbanismo.

O terrorismo, reforçou-os, tornou-os mais graves, de mais difícil solução”; e (3) “Em parte, o que se passa em Luanda passa-se em todos os grandes centros. Não é um fenómeno local mas um fenómeno geral de urbanismo. Em breve, daremos continuidade sobre esta abordagem.