A garantia do emprego no Estado-nação

Luanda /
30 Mai 2019 / 17:28 H.
Patrício Batsikama

Na edição passada falei no StaatNation – tal como já se verificou com a americanização/democratização – a garantia do emprego é tido como um dos instrumentos (que aliás é obrigação do Estado perante o seu cidadão) importante do Estado-nação.

O que aqui notamos é o seguinte: (i) a textura da tabela salarial angolana parece garantir menos o ‘bem estar individual’, o que estrategicamente alarga um espaço abismal entre o empregado e empregador; (ii) a filosofia salarial parece proporcionar o status-quo da população324, na falta de oportunidades ou políticas claras para promoção profissional, que aumentariam o rendimento; (iii) a falta de outros programas de integração e sensibilização massiva para oportunidades de emprego – e de Educação – prejudica os mecanismos que facultam rés-pública, base de toda Estado-nação.

Importa salientar, também, os jovens cooperantes: bisneiros (freelancers luandenses). Em alguns depoimentos, percebemos as origens de vários desses jovens e vamos mencionar duas que achamos importante salientar aqui: (1) A venda de ‘diamante’ em Luanda, faz com que dez ou mais jovens saiam dos seus locais de origem (espaço rural, de modo geral, de Angola oriental e fronteiriça com CongoKinsâsa e Zâmbia) para vir negociar em Luanda (espaço urbano e periferias). No sucesso do negócio – caso o produto seja vendido – os jovens começam primeiro com despesas em Luanda: (i) alcoolismo; (ii) serviço de prostitutas; (iii) compra desmedida de roupas caras e joias; (iv) etc. Poucos regressam ( já que estão perto do aeroporto) para seus locais de origem, e aqueles que lá voltam, levam os poucos recursos que sobram. A maioria fica instalada em Luanda, por gostar do novo espaço, ou ainda por servir de ‘ponto/intermediário’ nestes negócios. No insucesso do negócio, eles acabam por ficar em Luanda. Geralmente estes jovens não possuem capitais académicos para competir ao emprego digno, o que os leva a oferecer a ‘força física’. Uma parte busca residência nos Bairros, como Rocha Pinto – perto do aeroporto –, onde desenvolvem ‘pequenos comércios’, reproduzindo o ‘modelo habitacional’ do ‘espaço de origem’ e, por conseguinte, todas as suas representações sociais’.

(2) A procura de ‘melhores condições de vida’ e de ‘hegemonia económica’ das pessoas do ‘interior’, operou-se de várias formas, desde o tempo colonial.

Nos anos 1965-1974, a presença das populações orientais em Luanda estava associada às questões comerciais (Henrique, 1997).

Entre eles, havia Comerciantes, Negociadores/Tradutores, Carregadores, etc. Estas trajectórias tinham duas consequências, e hoje estas fugas reproduzem-se nos novos contextos: (i) fuga ou desistência por doença ou por incapacidade, na parte dos carregadores (sem contar aqueles que morriam). Foram, quase sempre, reaparecendo aqui e acolá.

No caso de Luanda, eles instalaram-se nas regiões agrícolas, nos arredores de Luanda (Funda, por exemplo);

(ii) reprodução dos espaços sociais nas paragens obrigatórias desta trajectória: os comerciantes e aqueles que eram tidos como nobres tinham suas concubinas (conhecidas e legalizadas) nestas ‘paragens’ (que eram aldeias), com as quais tiveram filhos.

Isto rentabilizava o comércio e oxigenava a manutenção do sistema comercial historicamente estabelecido.