As crises económicas e financeiras

A nossa memória colectiva e individual ainda tem bem presente as causas, consequências e a forma como foi sendo debelada a crise ocorrida em 2007 e 2008.

04 Out 2019 / 13:20 H.
Pedro Cunha Neto

Outras crises tiveram lugar ao longo do século passado, nomeadamente a grande depressão da economia americana dos anos 30, a falência dos tigres asiáticos, as perturbações das economias latino-americanas, como a do México, Argentina, etc., que, para tirarmos algumas ilações acautelatórias, poderemos analisar em próximos desenvolvimentos.

O que se passou de concreto com a crise de 2007 e 2008? Estamos lembrados que, segundo as informações amplamente divulgadas nos media, o epicentro foi localizado nos Estados Unidos da América, naquilo que se chamou o “estouro da bolha imobiliária”.

Por outras palavras, significou, numa primeira fase, um forte incremento num negócio que o sistema especulativo promoveu com argúcia e subtileza, atraindo construtores, financiadores e compradores, com a promessa de que sairiam todos a ganhar. A remuneração dos financiadores era tão atractiva que quase todo sistema financeiro mundial aplicou as suas disponibilidades nos bancos americanos. Quando, numa segunda fase, os compradores das casas começaram a manifestar a sua inadimplência em honrar os compromissos junto dos credores, a bolha estoirou, isto é, a máquina que tinha sido montada para funcionar sem percalços parou afectando, em cadeia, todo o sistema económico e financeiro à escala mundial, quer o do sector produtivo, quer o do prestador de serviços, pois ninguém pagava a ninguém. O dinheiro escasseou. O preço das commodities despencou e a crise se instalou.

A abordagem para a saída da crise e esta é a razão principal desta contribuição à guisa de reflexão, não foi uniforme em todos os quadrantes do globo.

Vamo-nos deter aos dois principais blocos económicos e financeiros: O da União Europeia e o dos Estados Unidos da América. Ainda estamos bem lembrados das medidas adoptadas pelo Banco Central Europeu e secundadas pelo Fundo Monetário Internacional, que em síntese, impuseram um clima de austeridade, sem precedentes na história económica e financeira da Europa. Cortes nos gastos públicos (salários, investimentos, etc.), aumento dos impostos (sobre o rendimento das empresas, das pessoas singulares e alternativos antes não tributáveis), para além das restrições ao acesso ao crédito. Países então denominados “PIGES”, Portugal, Itália, Grécia, Espanha e Irlanda, foram os que mais estiveram sob a lupa da então chamada troika integrada pelo Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e o Euro Grupo. A razão principal alegada nessa altura era, por um lado, evitar a contaminação dos outros países da União pelo vírus da inflação e dos créditos soberanos mal parados. Os Estados membros tinham, em nome da estabilidade económica e financeira da União, passar a viver de acordo com as suas reais possibilidades. Com a impressora do dinheiro centrada no BCE, com os bancos domésticos sem recursos, as fontes disponíveis do BCE, FMI e Mercados, estavam condicionadas às medidas de contenção ditadas pela troika. Em poucas palavras, o que a troika exigia era a garantia do reembolso dos empréstimos que os países carentes de dinheiro fresco precisavam.

Usando a terminologia dos experts, o BCE e sua comitiva, optou, então, por políticas restritivas, quer do ponto de vista fiscal, quer monetário, já que o cambial não se coloca no espaço de moeda única.Este assunto tem continuidade.