O homem a meio da ponte

12 Mai 2019 / 10:26 H.
Ana de Sousa

“Um dia exonerou 300 e, no dia seguinte, ficou 100 combustível.” Esta é uma das piadas das redes sociais e, se acrescentarmos, “foi por falta de diálogo e de comunicação que o Barcelona perdeu”, então temos a síntese do que de mais importante aconteceu nesta semana, até ao momento em que escrevemos, quarta-feira, 8 de Maio, dia em que África do Sul vai a votos e que Julius Malema, com um discurso radical que assusta uns quantos e mobiliza muitos, pode arrastar o voto dos jovens e dos desempregados no país mais desigual do continente africano que é, ao mesmo tempo, uma das potências de África. O mundo das perpétuas contradições.

E ficava por aqui e estava quase tudo dito, mas tenho de prosseguir, porque aquilo que não podemos mesmo é ficar a meio, seja qual for a nossa tarefa. Podemos levar mais ou menos tempo, mas temos de concluir. “O que surpreende em João Lourenço é a sua capacidade de transformar o seu discurso numa, pelo menos, tentativa de execução”, dizíamo-nos Marcolino Moco, no final do ano passado. E entre vírgulas a dúvida. E essa dúvida está longe de estar desfeita.

A recente crise dos combustíveis no País foi incendiária, revelou todos os fantasmas, trouxe de volta o espectro ainda tão presente do “eduardismo”, despertou até sentimentos de uma vaga nostalgia de um passado recente. E esta é a versão mais benevolente. Há outra malévola. A mais recente crise dos combustíveis é também a vingança dos marimbondos ou, como se pode ler num artigo do Maka Angola, o “triunfo dos marimbondos”, numa evidente referência ao Triunfo dos Porcos, de Orwell, em que temos porcos senhores da situação e ainda mais espertos do que os aparentes ferozes cães da quinta que acabam por ser eliminados.

Quer no artigo do site dirigido por Rafael Marques quer noutros tantos que podemos ler, mais ou menos honestos, chegámos à conclusão de que a falta de diálogo e de comunicação entre a Sonangol e as instituições do Estado não é de hoje ‒é de sempre. Até porque esse ruído e essa confusão foram de uma oportuna utilidade à petrolífera estatal – “a galinha dos ovos de ouro”, na expressão de João Lourenço que agora vê o ninho vazio – e a todos quantos enriqueceram enquanto o Estado vendia crude e comprava produtos refinados através de empresas privadas, num circuito fechado onde todos eram os mesmos e, inequivocamente, “eduardistas” – e houve mesmo a cereja no topo do bolo –, ao mesmo tempo em que se alimentava a narrativa de que a construção de refinarias não valia o esforço, de que não daria lucro. A questão hoje reside, parece-nos, nas perguntas feitas a uns e nas respostas que o outro exige, visivelmente “agastado” com essa situação – e é aqui que o paradigma mudou, porque no resto continua exactamente na mesma. E o resto é tanto – Sonangol, Governo, instituições do Estado e o partido. João Lourenço, “o chefe”, não terminou a tarefa que iniciou. É hoje evidente que a dança de cadeiras foi isso mesmo, uma dança de cadeiras.

Coragem é uma palavra que se associa, sem grande constrangimento, ao Presidente e, até prova em contrário, diríamos que se mantém. O que lhe tem faltado é o fôlego que, muito provavelmente, lhe é retirado pelos que o cercam, mantendo o Presidente numa claustrofobia palaciana, a fazer lembrar, por demasiadas vezes, o seu antecessor.

O Presidente João Lourenço, quando chegou ao poder, preocupou-se, inequivocamente, em estripar o “eduardismo” do aparelho de Estado. Mas... ou foi ingénuo ou mal aconselhado ou foi incapaz de perceber que estripar o “eduardismo” não era só afastar Zenu do Fundo Soberano, esse rapaz irresponsável a quem foram dados para gerir milhões, e Isabel da Sonangol, do monopólio dos cimentos e de outras parcerias em que era dona e senhora, e ainda dar umas reprimendas a Tchizé nas reuniões do Comité Central – tarefas menores quando se tem um País para governar. Além do mais, a família Dos Santos é uma das setes cabeças de Hidra, provavelmente a imortal, mas é uma das sete, e João Lourenço devia ter seguido o exemplo de Hércules e ter pedido ajuda. Não lhe bastava só cortar cabeças; era preciso queimar cada corte, numa tarefa, de facto, hercúlea mas indispensável. Não o fez e, esta semana, confinou no espaço de infindáveis filas para se abastecer combustível o tempo para que a sua governação fosse posta em causa. E assim foi, sem dó mas com piada.

Tenho sido demasiado insistente no tema, quase obsessiva, mas faz tempo que o Presidente da República devia ter remodelado o Governo. No Jornal de Angola,de domingo passado, Luís Bernardino, um reputado médico, fazia o diagnóstico da Saúde no País, desde o tempo colonial, e, a dada altura, também escreve sobre a “falta de planificação entre ministérios e entre instituições” e explicava, passo a passo, porquê – lá está!, também aqui temos a falta de “diálogo e de comunicação”. E se há ministra que se tem revelado um desastre numa e noutra coisa é a ministra da Saúde. Podíamos ir de sector em sector e encontraríamos a mesma falta “de diálogo e de comunicação”, os mesmos vícios de gestão e de administração – é com esses que o Presidente tem de romper.

Na recente visita ao Cunene, João Lourenço teve um choque face à realidade. Percebeu-a e sentiu-a, evidenciando-o na forma como hesitou para dizer que morrem pessoas naquela província – como se pudesse escolher as palavras; mas não se consegue, ninguém consegue. Os sinónimos da morte são todos incómodos. Acompanhei a visita do Presidente com uma pergunta, perante o que via e ouvia: seria possível dizer que não há fome em Angola. Depois da declaração do Presidente, no final da visita, a minha pergunta deixou de fazer sentido.

Claramente, este Presidente quer sair da redoma, da zona de conforto do Palácio da Cidade Alta, não teme o desconforto da governação, faz perguntas, mostra preocupação, inquieta-se com a possibilidade de execução, ou não, das medidas – testemunhámo-lo, mesmo que fisicamente constrangidos por serviços de segurança. O Presidente revela, cremos, vontade de agir, de fazer acontecer, mas precisa desesperadamente de colocar no Governo mulheres e homens que o apoiem, fazendo, que se antecipem, propondo e apresentando planos estratégicos e concertados, “diálogo e comunicação”, para situações conhecidas que se podem e devem antecipar – como a seca no Cunene ou a falta de combustíveis no País. Porque se o Presidente não se rodear de quem lhe dá apoio sectorial, de quem não anda a reboque das suas decisões, de quem não leva relatórios depois mas antes, perderá o apoio do povo, maioritariamente jovem e com muitos desempregados.

Ainda no Cunene pudemos constatar a força quase telúrica da figura do Presidente da República, o “pai-presidente”, mobilizada ou não pelas estruturas locais do MPLA, mas, nestas situações, seria desejável que a presença da estrutura partidária se fizesse sentir de forma mais suave, porque, num lugar onde falta quase tudo, João Lourenço tem de ser o Presidente de todas as angolanas e de todos os angolanos.