Angolanidade aposterioristica (II)

09 Ago 2019 / 12:16 H.
Patrício Batsikama

Angolanidade aposteriorística pode ser vista como a concorrência de todas angolanidades (ou das suas representações simbólicas, para além de FNLA, MPLA e UNITA): acompanha o paradigma de “globalizing culture”912.

A primeira tentativa terá sido os Acordos de Alvor, que ainda é uma excelente amostra, pois percebe-se dela: (i) a geopolítica social das “forças identitárias” no mapa societário de Angola; (ii) as heranças sociais das organizações políticas e seus tecidos sociais face ao projecto de Angola enquanto “nação/Estado-nação”; (iii) a concorrência na liderança de Luanda – como “espaço do poder” – e de Angola como o “lugar-comum”.

Como já adiantamos no capítulo anterior, as transformações sociais que os noventistas vêm impondo em Angola definem essa angolanidade. Mas para compreender melhor, devemos ter em conta a forma como o mundo estaria aqui a ser democratizado – depois da queda da U.R.S.S/Muro de Berlim – e, sobretudo, da forma como os próprios angolanos efectivam a democracia no seu país. Agora, porquê apriorística?

Essa angolanidade não é original no seu nascimento e desenvolver-se-á sem originalidade interna. Ela é consequencial (a priori), logo nela encontramos várias causas, uma complexidade definicional e, sobretudo, uma transformação contínua. Dos traços identitários definidores, essa angolanidade tem uma origem plural:

(1) efeitos da democratização/ globalização “angolanamente” vividos;

(2) as insatisfações dos independentistas na pós-independência914;

(3) integração económica e busca de justiça social pretendem romper o statuquo sequenciado pelo nacionalismo administrativo/económico (Pimenta, 2008).

Trata-se da angolanidade economicus.

A estrutura dessa angolanidade ainda pode parecer complexa por estar ainda em ebulição. Quem é o ‘Eu’? Quem seria o ‘Não-Eu’ e, em quem encontramos as características de ‘Outro’? Se reparamos bem, cada angolanidade responde a uma linha peculiar na categorização desses constituintes, o seu cruzamento aqui deverá responder a uma teoria coerente (partindo das angolanidade/teorias estruturantes diferentes).No período em que surge essa angolanidade, o capitalismo torna-se condicionado pelas dinâmicas do petróleo (e produtos derivados) e diamantes. Razão pela qual esta angolanidade parece-nos mais económica e, por conseguinte, neo-capitalista.

Partiremos das considerações de F. Barth, T. Eriksen e de M. Mann de que a etnicidade estaria na base do surgimento do Estado-nação moderno pela interdependência dos agentes simbólicos (enquanto “os de dentro” gerem o seu espaço historicamente herdado; enquanto “os de fora” buscam nos outros espaços cooperaçãoou troca de produtos): a desigualdade adstringente e as auto-imputações tornam o processo contínuo de constante dinâmica. Desta feita, a “angolanidade aposteriorística” será o encontro de todas as angolanidades na sua múltipla temporalidade, tal como se verifica na actualidade. A sua estrutura constrói-se – no primeiro momento – na concorrência dos “Eu”: 1) ‘Eu’: economicamente assumido pelo “Eu/apriorístico”; territorialmente o “Eu/rizomático”, “Eu/angolanitude” e “Eu/apriorístico” estão em contínuo duelo. Esse duelo parece dinamizar e integrar as diferentes angolanidades;

2) ‘Outro’: economicamente, temos “Eu/rizomático” e “Eu/angolanitude”; na perspectiva do território, parece parcialmente ser “Eu/apriorístico” /lusodescendente e afro-angolano. 3) ‘NãoEu’: passa a ser “Eu/rizomático” rural, “Eu/angolanitude” rural e “Eu/apriorístico” rural e periférico.

*Historiador