A confiança política, as falhas técnicas e as coincidências

No momento em que João Lourenço se preparava para receber, em audiência, as autoridades eclesiásticas, tradicionais e outras o palácio presidencial ficou sem energia eléctrica.

27 Mai 2019 / 16:50 H.
Fernando Baxi

Na vida acontecem múltipas coincidências, de foro pessoal ou profissional. Acontece que em política as coincidências podem não ter o mesmo significado que factos correntes do nosso quotidiano. Em Malanje ocorreu um facto que desperta à análise e põe a pensar quem percebe de estratégias de governação e riscos políticos. Quando o Presidente Lourenço preparava-se para receber os líderes da sociedade civil, houve corte de luz eléctrica no palácio do governador, local para o efeito. Durante vinte minutos o palácio esteve às escuras. O técnico responsável pelo funcionamento do gerador do palácio estava ausente quando houve a interrupção de electricidade na rede pública. Curioso é que a electricidade só faltou no quarteirão onde se situa o palácio, aliás, num outro quarteirão vizinho.

Toda cidade de Malanje tinha electricidade da rede pública. Mau para um governador, no caso Norberto dos Santos, que horas antes dissera ao Presidente que a energia deixou um problema na região e apresentou dados técnicos para comprovar ao seu chefe hierárquico que estava a sersincero. Estrategos em informação e análise não querem acreditar que foi uma mera coincidência. A prudência ensina que em situações do género, receber um Presidente da República, toda cautela é necessária para evitar-se acidentes do género. O que estava em jogo? Não queremos aqui jogar lenha ao fogo já posto, impõe-se questionar o que levaria a um comportamento do género da parte de subordinados, achamos que sim, vinculados aos serviços de distribuição de energia eléctrica na cidade. Este acontecimento faz até esquecer-se da relevância dos principais problemas que afectam os munícipes no País e que foram debatidos no município de Malanje, centro político-administrativo da província com o mesmo nome, horas antes do ocorrido. Malanje é uma região que passa pelas mesmas vicissitudes, que demais províncias do País, embora tenha recursos, inclusive humanos, capazes de alavancarem a economia local e suplantar a letargia económica.

As resoluções saídas da primeira reunião do Conselho de Governação Local deixou esperançosa os malanjinos optimistas, enquanto os mais cépticos preferem esperar pela materialização dos programas anunciados porque, avaliando o que cidadãos malanjinos disseram ao Vanguarda, vários foram os projectos de impacto económico e social programados e publicitados, mas nunca saíram do papel.

Coincidência ou não, o apagão na residência oficial do governador descredibiliza o trabalho desenvolvido na província de Malanje no sector de energia e águas. Esta última tem razão a ser chamadas aqui, pois não houve apenas interrupção de electricidade.

Houve também de água, mas só no quarteirão do palácio. Azar ou não, no discurso de abertura da primeira reunião do Conselho de Governação Local, diante de João Lourenço, Kwata Kanawa garantiu que energia eléctrica deixou de ser um problema na sede da província. Já dissemos que o governador apresentou números. E apresntou mesmo. Disse ao Presidente, aos ministros e governadores presentes que no domínio da energia, a província conta com uma potência disponível de 80 megawatts (52 para Malanje e 28 para Cacuso), um aumento de 60 megawatts, relativamente aos anos anteriores, como resultado de um aumento de potência nas subestações de Malanje, Cacuso e a elevação da Barragem de Capanda.

Foi na mesma ocosião que o antigo secretário para a informação do MPLA transmitiu a ideia de que a problemática da água potável também estava relativamente ultrapassada, tendo em conta os trabalhos desenvolvidos pela administração local.

O cenário de Malanje remete ao fim dos anos 1990 quando o então ministro dos negócios estrangeiros português, Jaime Gama, esteve em Angola. E no jantar oficial, no cine Tropical, houve interrupção de electricidade por poucos minutos.

Enquanto no Governo de Malanje procura-se pelo culpado do apagão e da seca nas torneiras do palácio presidencial, nas ruas comenta-se o facto de se ter feito limpeza apenas pela presença de João Lourenço. Por isso é que malanjinos, da constatação feita, acreditam que até o policiamento regular na cidade foi apenas para impressionar o Chefe de Estado, durante os dois dias em que lá trabalhou. Tudo porque nunca viveram um cenário similar. Todos os indivíduos com deficiência mental que deambulavam pelas ruas da cidade de Malanje foram recolhidos. Os murmúrios e a incredulidade são apenas direciconados à governação local, nas terras da palanca negra gigante. Apesar que nem tudo é mau, a julgar pelo que diz o delegado da UNITA na província - reconhece um exemplo a maneira como Kwata Kanawa interage com as forças políticas da oposição - há trabalho de fundo a ser feito em Malanje, a começar pela descentralização e desconcentração do poder político e administrativo nos municípios e nas comunas.