Mundo xiita movimenta-se no Líbano e no Iraque

O primeiro-ministro libanês, ‘homem de mão’ dos sauditas, não resistiu às manifestações que se instalaram nas ruas. No Iraque, o líder xiita juntou-se às manifestações, que também tomaram as ruas.

30 Out 2019 / 09:35 H.

As movimentações político-religiosas no Médio Oriente têm sempre por trás o fantasma do distanciamento entre xiitas e sunitas – ou, de forma mais prosaica, entre iranianos e sauditas – e as movimentações em diferentes palcos estão a surgir, sendo que resta saber até que ponto é que a morte do líder do califado do Daesh (Abu Bakr Al-Baghdadi, um sunita, como o próprio nome indica) tem interferência directa ou não, nesta sucessão de acontecimentos.

No Líbano, o primeiro-ministro Saad Hariri, ´homem forte’ dos sunitas na região, renunciou ao cargo depois do décimo terceiro dia de protestos – não sendo ainda certo que o Presidente da República tenha de marcar eleições: pode optar por nomear outra personalidade sunita para formar um novo governo.

O primeiro-ministro Saad Hariri anunciou esta terça-feira que iria apresentar a sua demissão, depois de não ter aguentado a pressão popular, que trouxe novos confrontos para as ruas de Beirute. Segundo as agências noticiosas, a sua decisão foi recebida com aplausos da multidão que ouvia o ao vivo em vários locais públicos.

Hariri disse que estava a ir para o palácio presidencial de Baabda para apresentar a sua demissão “perante a vontade de muitos libaneses que saíram às ruas para exigir mudanças”, referem as agências. No seu curto discurso na televisão, pediu “a todos os libaneses que dêem prioridade aos interesses do Líbano em proteger a paz e impedir qualquer deterioração da situação económica”.

Os revoltosos exigem uma mudança da classe política através da nomeação de um governo de transição, composto por tecnocratas, e pelo anúncio de eleições antecipadas. Os manifestantes também são a favor de uma mudança profunda no sistema político libanês.

Pouco antes do discurso, eclodiram confrontos em Beirute, depois de, no domingo passado, terem conseguido uma demonstração sem precedentes de força e unidade, formando uma cadeia humana de norte a sul do país, com 170 km de comprimento. A raiva popular explodiu em 17 de outubro, sem que seja evidente qual é o motivo profundo do descontentamento. O atual governo é o terceiro liderado por Hariri a cair desde sua ascensão ao poder em 2009.

Entretanto, no Iraque – de maioria xiita – o líder desta maioria, Moqtada Al-Sadr, juntou-se aos movimentos de protesto contra o poder. Usando um turbante preto, o líder xiita chegou esta terça-feira junto da multidão de manifestantes reunidos em Najaf, a santa cidade xiita do sul do Iraque. A chegada do ex-líder da milícia xiita, agora à frente da primeira força política do país, pode mudar o curso dos protestos, que já provocou mais de 250 mortos e oito mil feridos.

Desde o início dos protestos contra a corrupção e a má gestão da classe política, Sadr ameaçou juntar-se em pessoa aos protesto e pediu a realização de eleições antecipadas.

Para os apoiantes do líder xiita, espalhados pelas numerosos cidades xiitas do sul do país e no distrito da cidade de Sadr, bastião de mais de quatro milhões de habitantes em Bagdad, o envolvimento pessoal dos sayyed (‘descendente do profeta’) é um forte sinal de mobilização.