“A alma do Stand-Up Comedy está na criatividade é brincar com o momento e satirizar coisas que a plateia sente na pele”

A Zona Jovem Produções reafirma a sua aposta na diferenciação ao introduzir o stand up comedy, numa iniciativa conhecida, fundamentalmente, por ser musical. Desta feita, chegou a hora de Calado Show e Gilmário Vemba partilharem o palco da Casa 70 para duas noites de puro humor inteligente.

24 Mai 2019 / 17:25 H.

É a primeira vez que a Zona Jovem Produções inclui no line up do Duetos N´avenida um show de humor, qual é a sensação por fazerem esta “estreia”?

GV: Para mim foi uma sensação de conquista, estou a trabalhar no mercado humorístico há mais de dezasseis anos e temos visto agora a materialização destas conquistas. Já começamos a romper certos mercados, mas antes disto tivemos que criar um mercado aqui que fosse funcionar para o humor, criar um público que gostasse e pudesse pagar para assistir e hoje estamos a ver o humor cada vez mais entrar para o showbiz e entrar num projecto como este que tem uma nuance completamente musical, porque nunca se ouviu falar em duetos quando se fala em Stand-Up Comedy ou humor em si, é um sentimento de conquista.

CS: Felizmente há espaço para os humoristas, se recuarmos, vamos perceber que hoje há valorização da nossa arte, há um momento em que as pessoas param para pensar em humor enquanto há algum tempo atrás era só música e nós felizmente conseguimos vencer e vamos vencendo a cada etapa, é uma vitória. Daqui a pouco farei vinte anos de carreira e consigo perceber que vale a pena lutar para deixar esta marca que é o humor angolano que hoje é de uma qualidade extrema que será levada aos Duetos N´avenida e eles convidaram-nos não simplesmente por existirmos, é porque há trabalho e porque mostramos que a classe tem voz e pode encher salas num abrir e piscar de olhos.

Como é que vocês encararam o facto de terem sido um sucesso de bilheteira, obrigando a organização a orquestrar um segundo dia de show?

GV: Não foi uma surpresa porque sempre houve uma ânsia das pessoas de ver Calado Show e Gilmário Vemba no mesmo palco, mas a própria Zona Jovem percebeu que devia levar o Dueto de comédia da mesma maneira que os de músicas e urge então a necessidade de se fazer um segundo dia.

CS: Nós já viemos de um tempo para cá mostrando que é possível fazer e que tem qualidade, e os outros já maravilhados com a nossa vinda de outros palcos confiam na nossa capacidade e daí a forte aderência e bem haja.

É visível entrosamento que claramente vem das vezes que partilharam o palco, o que trazem de inédito nestes dois dias?

GV: Temos vindo a partilhar palcos desde 2007/2008. Nós sempre partilhamos palcos mas é a primeira vez que somos ambos cabeça de cartaz e que foi desenhado para estarmos em palco do princípio ao fim, só este facto já tem um “quê” de novidade. o espectáculo está desenhado a 70% e outros 30% está entregue ao acaso, portanto as surpresas não são só para o público mas para nós também.

CS: Já questionámos se é exactamente isto que a Zona Jovem quer, é bem verdade que a alma do show é a criatividade, vamos estar duas horas em palco a dividir ideias, a desenvolver temas e há também o lado da surpresa e a plateia vai ditar o que teremos de improviso.

Em que pontos é que vocês se completam enquanto humoristas, como olham um para o outro?

GV: Não sei se é porque sou muito fã do Calado Show, tem características que eu adoro na comédia e vou sempre que posso, vou absorvendo pois acho uma mais-valia, quando estamos em palco tento colocar o meu humor ao mesmo nível e isto cria um casamento imediato pois começo a pensar com a cabeça do Calado, não tão grande (risos) e vai dando certo. O maior ponto de entrosamento que existe entre nós advém da crença no trabalho do outro, da amizade e do respeito mútuo que já dura mais de dez anos, apreciando um a evolução do outro e quando assim acontece não tem como não dar certo.

CS: É daqueles humoristas que eu olho e reflicto “como é que ele pensa assim?” e há pensamentos que são semelhantes que parece imitação mas é aquela coisa de humorista nato que tem o poder de criatividade num ápice e me revejo muitas vezes no Gilmário e ele também tem esta visão e eu admiro, estando em palco e eu digo “i” e ele sabe que tem que pôr um ponto naquele “i”, é muito perfeito pois acontece tudo na maior naturalidade.

Já têm carreiras sólidas, qual é a visão que têm do humor nacional actualmente?

GV: É um mercado em ascensão e em desenvolvimento. Há muita gente com vontade de fazer o que é importante, e há muita gente a começar a fazer já com qualidade, o que é importante também e acredito que ainda precisamos de alargar este mercado e compreender devidamente como funciona o “esqueleto” do humor de dentro para fora, pois há também muita gente que quer fazer por imitação, é um bom começo mas é importante que as pessoas continuem a investigar.

CS: Uma pessoa pode ser engraçada em outros fóruns mas levar isto para um palco requer ciência sobre a coisa. Existem pessoas engraçadas e existem as humoristas, as pessoas engraçadas nem sempre são do palco.

Vão pisar o palco no dia de África, o que foi preparado à propósito desta temática?

CS: Vamos comer funge no palco (risos). Não passará em branco porque África é de extrema importância do ponto de vista de história e culturalmente, e vamos falar da kizomba que é um símbolo africano que está a fazer furor no mundo...

GV: Vamos falar sobre os vários processos que África passou enquanto berço da humanidade, das ciências e da matemática e todas outras coisas que elevaram o continente à “el dourado” e volta a ser, pois é muito rica tanto em recursos naturais como em recursos humanos também. Estamos numa fase de redescoberta da nossa inteligência, capacidade de pensar, criar e acreditamos nós que aquilo que foi preparado para “picar” em alguns aspectos sobre a evolução e necessidade de despertar do africano para os novos desafios.