Malta da calculadora

    Anda muita gente de calculadora na mão, somando números do desempenho da nossa economia, seja por via das receitas obtidas, principalmente, com a comercialização do petróleo, seja, ainda, através dos créditos que têm sido concedidos ao Governo.

    08 Mai 2019 / 16:21 H.

    Gente que, mesmo manuseando a máquina de calcular, apenas conhece uma operação: a de somar, esquecendo-se que há outras operações que também podem e devem ser feitas através do mesmo aparelho. Por isso, esquecem-se, propositadamente, da operação básica de dar e receber e vão anunciando recordes que só existem, na sua imaginação, numa tentativa torpe de descredibilizar as políticas económicas em curso e os esforços diplomáticos que têm assegurado uma crescente melhoria da imagem de Angola nos mercados internacionais, que se traduz em créditos a juros mais acessíveis e prazos mais longos.

    Diz a sabedoria popular que “mais facilmente se apanha um mentiroso que um coxo”. Não espanta, pois, que no afã de tirar mérito às medidas macro-económicas de estabilização da economia nacional se fale em cofres a voltar a encher. Mas afinal, se eles estavam cheios, como se disse, de que forma podem agora estar a voltar a encher? Não há aqui uma contradição elementar que só uma dor de cotovelo mal friccionada pode espelhar, ou a confirmação de que, sim, na passação de pastas, os cofres estavam, efectivamente, vazios como temos constatado e, pior, sofrido no dia-a-dia?

    No manuseio da calculadora, essa gente soma barris e preços para chegar à conclusão que no primeiro trimestre do ano, o país arrecadou cerca de três mil milhões de dólares, valor quase igual ao solicitado ao Fundo Monetário Internacional, no âmbito do programa com o FMI de assistência técnica e financeira rubricada pelo Governo.

    Os números são públicos. Foram os próprios responsáveis da Sonangol que o revelaram, sem qualquer máscara ou ufanismo, porque traduzem a realidade do ocorrido neste período em referência, conjunturalmente favorável à principal commodity de exportação nacional, que é o petróleo. Vir a publico, em cima disto, dizer que por este facto os cofres estão a voltar a encher é querer tapar o sol com a peneira, muito próprio de quem ainda não se capacitou que estamos numa outra era e que, por muito que queiram, insistam e invistam, nada será como dantes.

    O preço do barril de petróleo no mercado internacional não depende da vontade de Angola e sabe-se que a sua vulnerabilidade é uma constante do mercado, podendo trazer mais ou menos equilíbrio às contas nacionais.

    Preocupante é assistir essa “malta da calculadora” fazer passar a mensagem de que esse diferencial da venda do petróleo são apenas lucros, quando ignoram os enormes compromissos internacionais e nacionais com uma dívida que consome quase dois terços do Orçamento Geral do Estado.

    Dívidas que foram contraídas de forma atabalhoada e irresponsável para satisfazer caprichos dessa “malta da calculadora” que se encubou numa elite predadora com olhos virados exclusivamente para os seus inflamados umbigos, esquecendo-se do país real que agonizava ao seu redor e para o qual agora parece ter-se apercebido da sua existência, mostrando uma preocupação cínica para os enormes problemas que vive.

    Projectos megalómanos que consumiram milhões e milhões, contratados em dívida que agora se está a pagar, mas cujos resultados estão longe de satisfazer minimamente os seus propósitos, quando não se encontram completamente deixados ao abandono, como a abertura informativa actual tem mostrado para pena e dor de quem tem um mínimo de sentido patriótico.

    Contas ainda não fechadas apontam para cerca de cinco mil milhões de dólares de dinheiros públicos investidos em nome de privados. Isso, sim, é bem mais do que o dinheiro que o FMI ficou de desembolsar para ajudar as contas públicas do país. Aliás, os três mil milhões do petróleo do primeiro trimestre, não chegam para pagar metade da dívida da petrolífera nacional, “magistralmente” dirigida por quem agora se regozija de que, em tempo idos, Angola conheceu níveis de aparente crescimento com o preço do barril a menos de 30 dólares e que agora, numa média de 70, ainda não vê a seta a subir.

    O plano, a estratégia e a táctica certos eram aqueles que no pico do preço do barril a 150 dólares levaram ao acumular das suas riquezas pessoais e à crescente dívida externa, sem que as infra-estruturas, o tecido empresarial, os equipamentos sociais e o emprego tivessem uma correspondência com os esses avultados recursos que embebedaram essa minoria que tinha os neurónios ligados à Cannes, Mónaco, Londres, Miami, Nova Iorque e outras “passarelas mundiais”, enquanto o país da fantasia agonizava nos índices de desenvolvimento humano.

    É comum dizer-se que os erros de hoje pagam-se amanhã. E é essa, infelizmente, a realidade actual do país, obrigado a reparar colossais erros do passado, com a agravante dos beneficiários da farra estarem a exigir resultados que não conseguiram mostrar em décadas, muito por culpa da sua ganância e menosprezo pelos demais cidadãos angolanos.

    Há gente que não se respeita!