Desemprego, subemprego e emprego menos saciável

    Luanda /
    14 Mai 2019 / 15:09 H.

    Na edição passada abordamos “A semelhança dos fenómenos sociais”, entre a era colonial e a actual de Luanda, na página cinco, ao lado desta, num inquérito feito há uns sete anos a 109 jovens quando se registava uma onda crescente de manifestações.

    Dizíamos na edição passada que das fontes consultadas e comparadas por nós, percebemos que este problema da juventude data dos tempos coloniais, por volta de 1961-1974315.

    Em busca de medidas para solucionar as insurreições em Luanda, o Governador de Luanda, Carlos d’Oliveira Santos, enviava – no dia 24 de Janeiro de 1967 – um relatório detalhado e solucionador ao Inspector Adjunto da PIDE, Abílio Augusto Garção e, ao Capitão Arnaldo Dias Ribeiro, PSPA, um relatório urgente e confidencial. No relatório lê-se o que se passa em Luanda, em parte, passa-se em todos os grandes centros. Não é um fenómeno local, mas um fenómeno geral de urbanismo.

    Estamos a nos referir as manifestações. Mas, se só assim fosse, por norma, não teria implicações mais graves do que as já conhecidas e estudadas pelos sociólogos, por geral, permitir-nos-ia a adopção de métodos já conhecidos para minorar o mal.

    Mas a tudo isto há que acrescentar um outro fenómeno: o do terrorismo. Por isso, ao mesmo tempo que temos que resolver o problema do trabalho e da ociosidade, da assistência e da mendicidade, do crime e do seu rápido castigo, temos, também, que tomar disposições que, sem atacar, nos defendam, que sem perturbar grandemente os espíritos dêem um pouco de sossego à totalidade dos habitantes desta cidade.

    Por tudo isto julgamos justificada plenamente a existência do cartão profissional agora proposto. Mas tudo isto implicaria estudos morosos e uma paz para breve. E a verdade é que, decorridos seis anos de guerra (início em 1961), o inimigo ampliou a sua zona de acção.

    Mas será que a obrigatoriedade do cartão profissional, só por si, resolverá o problema? Não. Torna-se necessário, sim, tomar outras medidas de conjunto e, mesmo assim, podemos, quando muito, contar com um sucesso da ordem dos 50 por cento. Até aqui era citação do conteúdo do relatório.

    Continuando, o chefe de Departamento do Trabalho – nesta época, Almeida Cunha – apresentou uma proposta intitulada: “Medidas e Desemprego, subemprego e emprego menos saciável cessárias ao maior controlo das entradas e saídas de Luanda e ainda as condições de vida da população que habita os diferentes musseques da cidade”. No seu relatório, ele sublinhou que estamos perante um problema humano, perante os homens com as suas inquietações, as suas angústias; o ponto de partida é o indivíduo, o grupo social a quem temos de fazer compreender as exigências do bem-comum; e, por último, as circunstâncias de desemprego, subemprego, miséria, vadiagem, ociosidade, corrupção, ambiente favorável a subversão são um conjunto dum fenómeno socioeconómico. Então, cruzando estes factos de outrora com os mais recentes, os ex-militares que entrevistamos há poucos anos reconhecem esta época.

    Os detalhes que eles nos dão levam-nos a ter uma certa fiabilidade em relação a isto. Interessantes ainda parecem-nos ter sido as razões dos jovens manifestantes de Luanda entre 2011-2013. Vamos reter dois pontos:

    (a) Eles manifestam-se e gostam de, preferivelmente, manifestar-se no Largo do 1.º de Maio, também conhecido como Praça da Independência, e reclamam o desemprego, a falta justiça social e contra a ditadura;

    (b) Eles reclamavam a saída do poder do então Chefe de Estado, democraticamente eleito. Será a negação da FNLA e UNITA, em relação ao projecto de Nação (Estado-nação), tal como o terá conduzido MPLA desde 1975 Numa perspectiva, faz sentido que os manifestantes de 2011 reclamassem o emprego, dai a razão do ‘espaço de manifestação’ ser o ‘Largo do 1.º de Maio’. Por isso, acho que com as eleições de 2012, termina o tempo de legitimação do projecto de Estado-nação entre os independentistas. Na altura, de 109 jovens luandenses entrevistados, 29 deles estavam versados no ‘emprego pessoal’, e os homens optavam pelo ‘kandongueiro/táxi’, enquanto as senhoras estavam na zunga. Analisando as características sociais de quem fazia manifestação, um taxista biscateiro facturava, diariamente, 15 mil Kz com um total mensal de 360 mil Kz, descontando finais de semana, ao passo que o taxista dono do carro atingia 768 mil Kz por mês.